Redenção

Voltou a si e a primeira coisa que pensou foi: “Há quanto tempo?”

Tentava se mover, mas a dor era imensa. Resolveu esperar a tontura passar.

Escorregou a palma da mão no chão, onde estava caída. Sujou-a com o próprio sangue que havia respingado ali.

O silêncio da casa só era interrompido pelos roncos que vinham do sofá.

“Preciso fazer o café, antes que ele acorde.”

Concentrou a pouca força nos braços e conseguiu erguer o tronco. Mais um bom tempo usando roupas compridas para esconder os hematomas. Estava fazendo muito calor, ultimamente. Mas era melhor do que ficar respondendo às perguntas indiscretas.

Encolheu-se toda, quando os roncos cessaram por um momento e ouviu os ruídos dele se remexendo no sofá. Ficou imóvel até a respiração dele voltar ao ritmo de quem dorme.

Finalmente conseguiu se levantar e manquitolou até o seu quarto, para trocar a blusa rasgada. Era melhor estar arrumada quando ele acordasse.

“Há quanto tempo?”

No banheiro da suíte imensa, lavou o sangue e trocou as roupas. Juntou tudo numa trouxa só e levou até a lavanderia. Cada gesto ou passo era um gemido sufocado.

Quase tropeçou na garrafa caída. A bebida ainda estava empoçada no chão. Recolheu a garrafa, pensando que teve sorte de ele não ter conseguido quebrá-la dessa vez.

Jogou a garrafa no cesto de roupa suja e por pouco não joga a trouxa de roupas no lixo. Ainda deixou escapar um pequeno riso, pelo engano. Um riso seco, nervoso. Desfez a troca.

Enquanto a água fervia, pegou o balde e o pano para limpar o chão.

“Há quanto tempo?”

De quatro, deixava o pano absorver a bebida da poça e o torcia dentro do balde. Voltou à lavanderia para pegar produtos de limpeza. A água do café estava quase fervendo.

Sentiu a espinha congelar quando derrubou a lata de milho na despensa. Mas ele não acordou. Voltou lentamente à cozinha e terminou de esfregar o chão. Pelo menos o cheiro de álcool sumiu. Teve nova dificuldade em se levantar. Mal podia erguer o braço. Provavelmente, estava com outra costela quebrada.

Mancou até o fogão. A água já fervia. Tentou pegar o vidro com o pó de café, mas estava alto demais e a dor a impediu.

“Há quanto tempo?”

Desde quando deixara que sua paixão a dominasse àquele ponto? Por que não ia embora? O que a impedia? Talvez fosse o medo de que ele a perseguisse novamente. Na última vez que isso aconteceu, ele realmente parecia mudado e ela não resistiu ao sentimento.

Mas agora…

“Há quanto tempo deixei de amá-lo e não notei? Há quanto tempo estou escondendo tudo isso por hábito?”

Segurou a panela com força, até que os nós dos dedos ficassem brancos, embora não notasse. Também mal notou quando seus pés e o ódio crescente a levaram até a sala. Ele ainda dormia profundamente, roncando muito com a boca aberta.

“Há quanto tempo aguentarei isso? Até hoje.”

E despejou toda a água fervendo dentro da boca do marido.

7 pensamentos sobre “Redenção

  1. Nooossssaaaaa!!!! É como minha namora sempre diz: “Deus dá a cada um, o conjuge que merece!”. Muito louca essa história, absurdamente real. Isso porque eu acredito que coisas semelhantes acontecem ou já aconteceram em algum canto desde planeta redondo. Parabéns, quando sai o livro?

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