Príncipe dos mares (reedição)

Fuçando nos arquivos antigos, fui reeditar este post e de repente, ele tomou uma interpretação inteiramente nova pra mim, falando diretamente às minhas últimas experiências. Achei que era hora de postá-lo novamente:

Observou as marcas deixadas pelos seus pés, onde pisara na areia molhada. Ela caminhava abraçando a si mesma, com o pensamento longe dali. Há dias não falava com ninguém, por não querer expor o que reprimia ou temer ouvir a própria voz.

Isso teve início na primeira vez que o viu recolhendo a rede, ao voltar da pescaria em alto mar. O sol poente reproduzia seus raios no suor que escorria dos músculos em suas costas. Ele possuía uma beleza divina, quase etérea. Não se deu conta da garota que o olhava a distância ou talvez tenha simplesmente a ignorado. Quando ela percebeu que o encarava havia alguns segundos, correu para casa vexada, como se ele soubesse da impressão – nunca dantes sentida – que provocara nela.

Desde então, saía a caminhar todos os dias no mesmo horário para encontrá-lo. E diariamente o observava de longe, disfarçadamente. Sempre o encontrava do mesmo jeito: descalço, recolhendo a rede de pesca, com o sol poente a rebrilhar em suas costas másculas. E ele nunca a via.

Curiosamente, ninguém sabia nada sobre ele. Seja a quem for que perguntasse, não o conheciam, nunca o tinham visto. Mas não era de se estranhar muito, pois a aldeia não era tão pequena assim.

De um certo modo, as pessoas começaram a estranhar sua obsessão em sair todas as tardes e suas perguntas. E começaram a se afastar e a cochichar quando a avistavam. Por isso emudeceu.

Estava no auge do deslumbre com seu primeiro amor e já não sabia diferenciar o amor por ele, do amor pelo sentimento que nutria. Já fazia algum tempo que não o via mais. Tempo demais para o seu coração recém-desvirginado.

O fim da sua linha de pensamentos a encontrou já nos pés do caminho de pedras.

Ela caminhou até a ponta do píer natural. Seu rosto demonstrava total ausência da realidade e seu pés pareciam não sentir as pedras pontiagudas. As ondas fustigavam impiedosas as paredes do pequeno precipício e as nuvens negras anunciavam a iminência de uma tempestade. Nada parecia alcançá-la na altura de seus devaneios.

Nem mesmo o vento fortíssimo que despenteava violentamente seus cabelos ou a onda gigantesca que se foi formando a não muitos metros de onde estava.

A onda estava prestes a quebrar em pleno píer e ela finalmente deu mostras de despertar do torpor.

Ela não podia acreditar no que via: em meio à espuma que se formava na crista da onda, viu formar-se um rosto. E este rosto sorriu-lhe abrindo os braços convidativos. Ele voltara para lhe buscar.

Uma lágrima escorreu pelo seu rosto, já se misturando à água salgada que respingava da onda, e foi encontrar seus lábios em um sorriso de entrega. Ela estendeu suas mãos ao seu príncipe dos mares e o mar a engoliu para sempre.

2 pensamentos sobre “Príncipe dos mares (reedição)

  1. Iara, versão masculina.

    Um pão nosso de cada dia: a gente vê algo único, e joga-se nele até o fim. Seja lá o que fim significar.

    E cada vez mais vejo graça em finais tecnicamente não-felizes =)…

  2. Adoro essa forma de escrever! Quase sempre tão repleta de sentimentos tão comuns a nós mortais, mas tão severamente tratados com indiferença mortal.
    Um abraqço e visita meu canto de puro devaneio literário.

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