Fogos de final de ano

O soldado acordou com um facho ensolarado brilhando em seus olhos.

Esfregou o rosto com as mãos e o gesto lhe fez sentir o ferimento nas costelas.

Não reconheceu as paredes que o cercavam, mas lembrou-se vagamente de ser ferido e abandonado pelos companheiros.

Tentou mover as pernas e não conseguiu. Tentou chamar alguém, mas a voz falhou. O esforço o esgotou e tudo se apagou novamente.

Quanto tornou a voltar a si, um homem trocava os panos que envolviam suas pernas, enquanto uma garotinha o observava, postada ao lado da sua cabeça. Ela segurava uma boneca de trapos, com cabelos de palha. Estendeu a boneca para ele, murmurando algumas palavras num dialeto que ele não compreendeu. E segurando a boneca, lembrou-se que estava em território inimigo.

Já sentia as pernas e acordou plenamente lúcido, no dia em que viu uma cadeira fora do casebre. Levantou-se com um pouco de dificuldade e claudicou até lá, sentando-se com alívio. A garotinha, que brincava a alguns metros, correu ao seu encontro e gentilmente lhe tomou a boneca que ele ainda tinha inconscientemente segurava entre os dedos. Ela buscou as latinhas com as quais brincava, fazendo de conta que dava de comer à boneca. Estendeu uma delas ao soldado, que viu grãos, pedras e alguns insetos mortos em seu interior. Olhou-a aflito. Ela levou uma das latinhas à boca, como se comesse e ele a imitou. Ela pareceu satisfeita.

Dia após dia, enquanto brincava com sua anfitriã, o soldado se perguntava se aquela pequena família, que o acolheu e o alimentou, sabia que eram inimigos.

Já fazia uma semana quando descobriu sua mochila ao lado da cama, com o conteúdo intacto. Somente o tecido camuflado que cobria o exterior mostrava algumas marcas da batalha na qual fora ferido. Lá dentro encontrou seu GPS e o rádio, que funcionavam muito bem. A barra de chocolate que encontrou, deu à sua nova amiga, junto ao primeiro sorriso em meses, desde que partira para a guerra.

Naquela mesma noite, quando foi fazer os curativos, o dono da casa encarou-o apreensivo. Não precisavam falar a mesma língua para que o soldado soubesse que sua perna não ia bem.

A febre começava a tomar o seu corpo, quando conseguiu contato com o acampamento amigo e a eles deu as coordenadas do vilarejo onde estava, para que pudessem lhe prestar os serviços médicos necessários.

Delirava, enquanto a garotinha segurava preocupada sua mão ardente, quando a tropa invadiu o casebre com correria, “resgatando-o” das mãos do inimigo. Uma rajada de metralhadora para dentro do cômodo, para garantir a retaguarda da fuga.

O soldado, deitado em uma padiola, ouvia os sons do bombardeio no vilarejo e em seu delírio, imaginou estar de volta ao Ocidente, onde naquele exato instante explodiam os fogos de final de ano.

5 pensamentos sobre “Fogos de final de ano

  1. Belíssima história! Observo que seus contos (como a vida) raramente possuem finais felizes nos últimos tempos… E como a vida, seus contos continuam simples, intrigantes e com um senso de humor muito sutil, um toque de tempero essencial, mas perceptível… Adoraria ver o que anda fazendo por INSOMNIA ¬¬
    Tem post novo no meu blog!

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