Olívia e eu

Era uma vez uma cadela de rua.

Era uma vez uma cadela tão magrela, que parecia só ter olhos, orelhas e pernas. E foi apelidada carinhosamente de Olívia Palito.

Em numa dessas vezes, a Palito passa em frente da minha casa quadrada de tão grávida. Some e reaparece, saindo do meio do mato atrás do meu muro. E um dia, ela entrou lá quadrada e só saiu no outro dia, fininha.

A Pimenta Mãe, preocupada, esperou até que desse o horário da Olívia buscar seu almoço e se embrenhou no capinzal, onde achou, em um ninho muito bem feito, os oito [OITO!!!!] cachorrinhos.

Voltou correndo para casa e ligou para a Dona Darcy [ex-vizinha que é membro da Sociedade Protetora dos Animais], ao que esta a orientou a levar os cãezinhos pruma construção próxima, até que ela pudesse chegar com a assistência.

Então, Dona Mamãe se armou de uma cestinha, onde acomodou os bebêzinhos para levá-los à construção. No meio do caminho – no meio da rua. A casa ficava em frente ao capinzal – um momento de tensão: no horizonte surgiu Olívia, desconfiada com aquela mulher atrevida, carregando uma cestinha que cheirava como seus filhotes.

Dona Pimenta depositou cuidadosamente a cestinha no chão. Olívia se aproximou, cheirou os filhotes e acompanhou minha mãe até sua nova casa, onde uma caixa com trapos e uma tigela de leite com biscoitos a aguardavam.

Nesse dia, eu mal cheguei da escola, larguei o material e o almoço pra trás, para ir correndo conhecer a mais nova família da rua. Entrei na construção e troquei olhares com a cadela magrela, rodeada de cachorrinhos ganindo. Estendi a mão para um cumprimento e naquele momento, em que meus dedos acariciavam os pelos cor de areia, nós duas tivemos certeza de que ali nascia uma amizade no melhor estilo BFF [Best Friends Forever].

A rotina de visitá-los à tarde transcorria normalmente, até que uma semana depois, o dono da construção descobriu os novos inquilinos e assinou o despejo.

Dona Darcy [a da Sociedade Protetora] descobriu um outro membro da Sociedade, que construía em frente à nossa casa. Então Olívia e rebentos mudaram-se para a lavanderia a duas casas à esquerda, onde uma casinha nova de madeira os esperava.

Neste dia, quando cheguei da escola, Olívia me esperava na varanda. Aproximei-me para cumprimentá-la e ela correu em direção a casa [que até então eu não saiba que era] nova. Estranhei o comportamento. Ela voltou correndo até o meio da rua e ficou me olhando [ela quase não latia]. Quando dei alguns passos em sua direção, ela tornou a correr para a casa nova. Aí eu entendi que ela queria que eu a seguisse. Quando entrei na lavanderia da construção, Olívia estava deitada na casinha de madeira, toda orgulhosa e empurrava com o focinho os filhotinhos em minha direção. Aquela vira-latas realmente sabia conquistar alguém.

Eu também fiz a minha parte. Ficava com os ouvidos em pé e corria até os filhotes ao menor sinal de ganido. Normalmente quando isso acontecia, Olívia tinha saído pra dar sua caminhada diária e os bebês se sentiam sozinhos, ou caíam atrás da casinha e não conseguiam voltar.

A rotina voltou a pacificar, até que a Dona Darcy conseguiu doar os filhotinhos. No começo, Olívia não se deu conta. Porém, com a visível redução da população lavanderiana, ela tornava-se cada vez mais agitada. Até o dia no qual foi doado o último filhotinho. E ela se deitou na minha varanda e chorou a tarde toda. Fiquei ao seu lado neste momento difícil, como toda boa amiga faria. Mas eu não resisti imaginar que Olívia teria que dormir sozinha na lavanderia escura e fria. Então convenci meus pais a trazerem sua mudança para a nossa garagem. E lá ela ficou.

Tornou-se um membro da família. Quando dava meio-dia, ela corria para a esquina para me encontrar, assim que eu chegasse da escola. Se minha mãe fosse olhar o movimento da varanda, Olívia juntava com a boca um punhado de ração, despejava no chão ao lado da dona e sentava, comendo a ração uma por uma, como se fossem snakcs.

Dona Darcy conseguiu uma provisão de ração e providenciou que ela fosse castrada.

A coisa mais fofa, foi quando ela voltou da cirugia: Dona Darcy abriu o porta-malas e Olívia saiu de dentro num pulo, correndo a rua de cima a baixo, subindo à nossa varanda e voltando, até ficar exausta e deitar no chão com a cabeça em meu colo. Ela demonstrou da melhor maneira possível que estava com saudades.

Tudo voltou a correr bem. Muito bem, até demais. Até que a cadela de rua [já não tão magrela agora], se achou no direito de querer ser a dona da rua. E aí, como minha casa não tem portão, ela avançava em qualquer transeunte pacato e desavisado, para morder-lhe o calcanhar. E ela avançou na pessoa errada. Alguém que tinha pavor de cachorros. E esta pessoa tinha tanto medo de cachorros, que passou a vir diariamente até a minha rua, carregada de pedras nas mãos [literalmente] para tacar em Olívia.

A solução, foi mandá-la para a casa da minha avó onde ela está até hoje. Lá ela tem casa, comida e carinho e nossas visitas regulares.

A recepção é sempre a mesma: ela fica ganindo no portão até minha avó abrir. Quando entro, ela pula em mim e fica nas patas traseiras para receber carinho.

E é assim que essa história de uma vira-latas adotada termina: sem um fim. Só tem começos.

Era uma vez uma cadela de rua que sabia ser amiga de verdade.

Era uma vez Olívia e eu.

Olívia morando na minha garagem

4 pensamentos sobre “Olívia e eu

  1. Não sei se você já viu um desenho antigo que começava sempre dizendo “Esta é uma história verdadeira, que aconteceu com um amigo, de um amigo meu”.

    Me lembrei deste desenho porque a intenção era contar uma história real, e estas são as mais interessantes.

    Ps.: Eu sabia que o Popeye não era boa pessoa. Onde já se viu, largar a Palito com 8 filhotes, assim, na rua?

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