Enjoy the silence – final

Ele caiu do tronco quase desfalecido. E disse-me as palavras que nunca vou esquecer:

_Meu coração sempre baterá por Sinhazinha.

A fúria me tomou de tal forma, que chutei-lhe o rosto e pude ouvir o som de seu nariz se quebrando.

_Mate-o – ordenei ao feitor.

Ele me olhou aparvalhado.

_Mate-o logo. Mate logo essa besta nojenta, antes que você tenha o mesmo destino que ele!

Ele tirou o revólver do cinturão e eu o impedi.

_Não! Arranque o coração dele!

O feitor gaguejou, começou a tremer. Balbuciou qualquer coisa de que era muita crueldade. Eu nem ouvia apenas esperava, com os punhos cerrados e os lábios comprimidos.

Ele pegou o facão, ergueu e enterrou-o no peito do negro. Com a dor o escravo despertou e soltou o primeiro e último grito que eu ouvi. Depois disso, só me lembro de ter visto o coração ensanguentado na mão do feitor e então desmaiei.

Acordei tarde da noite, com meus pais e um médico em volta de mim e o cheiro de éter no quarto. Todos suspiraram aliviados com meu despertar.

Antes de dormir novamente, sussurrei em meio a um sorriso sarcástico:

_Aquele coração nunca mais baterá.”

A essa altura da narrativa eu olhava horrorizada para a moça com rosto angelical à minha frente. Nunca imaginei que tanta maldade coubesse em uma imagem tão pura… Mas ela continuou:

_Naquele mesmo dia, Madre, eu acordei com um ruído ritmado no corredor do meu quarto. Era um ruído surdo e por conta do sono, não consegui identificar imediatamente. Mas logo o identifiquei e o sono foi embora: era o som de um coração batendo! Não era o meu. Estava muito alto… Não era o de ninguém! Todos estavam dormindo! Madre, eu ouço esse coração batendo o tempo todo dentro da minha cabeça! E quando tudo silencia… O som torna-se insuportável! Por favor, não me deixem só! Não durmam! O silêncio me enlouquece!

Apavorada, me afastei de costas até a porta, corri para o quarto da Madre Superiora. Implorei-lhe que tirasse aquela menina do meio das nossas, ou poderia contaminá-las com sua loucura. A Madre balançou a cabeça e me disse que não havia melhor lugar para que ela encontrasse paz de espírito e se libertasse do passado.

E assim a nossa rotina foi seriamente abalada, com os gritos e gemidos noturnos da garota. Até poucos dias depois de sua chegada, quando não suportando o habitual silêncio de um convento, seus gemidos foram gradativamente se transformando em gargalhadas insanas que ecoavam pelos corredores de pedra e seguiam seus passos trôpegos. Ainda tentei lhe segurar, quando se sentou no parapeito da janela da torre e se desequilibrou, porém as sedas de sua camisola deslizaram pelos meus dedos e vi aterrorizada o seu corpo se chocando contra os muros do convento.

Até hoje antes de dormir, aquele último uivo enlouquecido se perdendo no abismo ecoa em minha mente. E até hoje o meu sono é assombrado pela lembrança daquela criatura amaldiçoada pelo amor.

5 pensamentos sobre “Enjoy the silence – final

  1. Dificil mesmo dormir depois de uma cena dessas O.o

    Aliás, você descreveu a cena da crueldade com tanta fidelidade, que até “vi” e quase “senti” a dor do escravo mutilado. Os piores malfeitores estão sempre vestindo pele de cordeiro, né?

    Valeu pela visita e pelo comentário no meu blog de tirinhas VidaMonga. Também curtiria ser provador de hotéis de luxo, hehehe. E parece que até já existe… talvez, se a gente arriscasse tentar…

    Abraços o/

  2. … Você me assusta! E seu rostinho inocente aliado a seu um metro e quarenta e dois lhe dão uma (falsa) aparência inofensiva! Conto excelente, mas você nem faz idéia de QUEM eu imaginei no papel da mocinha “com tanta maldade em uma imagem tão pura”… Beijos e beijos… De longe!

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