Enjoy the silence…

Já fazia alguns anos que eu havia seguido minha vocação e dedicado o meu destino ao Senhor. Era a ajudante pessoal da Madre Superiora e nunca imaginei que este posto me colocaria na terrível situação que narrarei.

Entre minhas tarefas habituais, estava organizar o escritório da Madre e cuidar das moças rebeldes que iam parar dentro das nossas paredes. Dentre estas, uma é a personagem principal de um romance não correspondido, cujas consequências foram terríveis.

Tratava-se da filha de um coronel, que como tantas outras trouxe humilhação social à sua família. O caso era que estas moças sempre acabavam nos conventos, nunca por vocação. Nestas situações, costumávamos não fazer muitas perguntas, porém especulações são inevitáveis: Ela não tinha a aparência de quem abortara algum filho, ou mesmo que tivesse sido afastada de um amor impróprio. Na verdade, parecia feliz por estar entre nós. Chegou um tanto pálida e fragilizada, é verdade. Mas carregando um leve sorriso de alívio nos lábios, o que me intrigava.

Encaminhei-a aos seus aposentos e as demais moças, com quem o dividiria, vieram ao seu encontro, para auxilia-la com as bagagens. Até o fim do dia, já se entrosara com as companheiras de quarto e estava instalada. Minha parte feita, subi para o escritório da Madre, onde fiquei até o momento de dormir, catalogando documentos antigos.

Já começava a encerrar minhas tarefas, quando ouço passos ecoando com pressa pelo corredor e a porta se abre com força.

Uma das moças, companheira da nova inquilina adentrou o escritório, burlando uma das principais regras, que impediam-nas de percorrer aquela área do convento sem serem convidadas por mim, ou pela Madre.

Estava pronta para castiga-la, não fosse a palidez de morte em seu rosto.

_O que houve, minha filha?

_Madre… Aquela garota… A moça nova… Ela está tendo um ataque! Está gritando como doida no quarto!

Corremos à ala das moças e o caos se instalava por lá. O barulho havia atraído as moças dos outros quartos, que se engalfinhavam na porta para olhar o que acontecia. Nenhuma delas ousava transpor a porta.

Com uma ordem minha, a aglomeração se desfez e eu pude passar.

A moça nova chorava e tapava os ouvidos com as mãos, implorando para que falássemos alguma coisa.

O silêncio era tão grande quanto a expectativa das garotas.

Os soluços tornaram-se em gritos:

_Por favor, falem! Gritem! Não deixem que o silêncio me envolva!

Sentei na cama em frente à criatura perturbada e segurei seus pulsos com força. Ela me ergueu os olhos vermelhos e inchados.

_Não aguento mais esse silêncio. Preciso de algum som!

_Acalme-se, menina. Me explique o que está havendo.

_Ele não me deixa em paz, Madre. Ele não quer que eu durma! Estou acordada há dias!

_Me conte do princípio. Assim não a compreendo…

A garota respirou fundo, engolindo as lágrimas e começou a contar:

_Madre, ele me persegue! Desde que éramos crianças… Nascemos com uma diferença de dias e sua mãe também me amamentou.

“Crescemos juntos e ele fazia tudo por mim. Atendia qualquer desejo meu, mesmo nunca tendo eu lhe dirigido a palavra. Crescemos com o tempo e sua devoção permanecia. Sendo eu já uma jovem, essa obsessão me enojava. Como ele, UM ESCRAVO, podia ousar amar-me? Aqueles olhos negros deveriam sequer erguer-se em minha presença. Mas ele me olhava. Me observava quando eu passava perto de onde estava trabalhando. Me encarava quando eu descansava na varanda. E eu o odiava cada vez mais.

Para me vingar desse sentimento impuro, eu procurava maneiras de castiga-lo quantas vezes me fosse possível. Qualquer tropeço era motivo para que eu induzisse meu pai ou o feitor a lhe estraçalhar as costas debaixo da chibata.

Em um maldito dia em que eu bordava no jardim em companhia das minhas amigas, esse porco aproximou-se de nós com um buquê de acácias, minha flor favorita e o depositou no chão, aos meus pés. Ousou olhar-me! Ousou dirigir-me a palavra! E disse:

_Sinhazinha é a coisa mais bonita dessa fazenda. Mais bonita até que essas flores que eu trouxe e que ela tanto gosta.

Minhas amigas explodiram em gargalhadas. Riam de mim, dizendo que eu tinha um namorado negro.

Enfurecida pisoteei as flores, fazendo meus cabelos se soltarem e gritei pelo feitor que veio correndo em nossa direção e puxou o escravo em direção à senzala.

Segui-os com o ódio a saltar-me dos olhos. Pisava com tanta força que sentia o barro sujando minhas saias.

O feitor surpreendeu-se. Eu nunca fora até a senzala. Mas queria ver de perto o sangue escorrendo daquele couro.

O chicote desceu zunindo e quando o atingiu, aquele desgraçado não soltou um gemido. Somente depois da sétima chibatada a pele grossa se abriu e o sangue espirrou. Já havia contado 12 golpes e ele não se rendia. Não gritava. Suas costas já eram apenas uma pasta vermelha. E ele não gritava.

Na vigésima chicotada, o feitor parou e o soltou. Meu vestido estava todo respingado de sangue.

Ele caiu do tronco quase desfalecido. E disse-me as palavras que nunca vou esquecer:

_Meu coração sempre baterá por Sinhazinha.

(continua)

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