Lar

Neusa tem olhos verdes.

Cida prefere vermelho.

João adora cães. Cuida de oito.

Marluci odeia o frio.

Antônio é poeta.

José não sabe ler.

Janilson perdeu o pai quando ainda era adolescente.

Roberval era pedreiro.

Maria tem pesadelos todas as noites.

Clécio é esquizofrênico.

Janice já foi violentada.

Gilmar também.

Hudson tem dor de dentes há anos.

Elba sente falta do sabor do sorvete de creme, que tomava na sorveteria perto da casa da avó.

Manoel nem se lembra de como é a sensação de um banho quente.

Miguel perdeu o saxofone e a dignidade.

Denílson vai morrer de cirrose.

Catarina nunca ficou sóbria.

Baltazar não tem uma perna.

Vandersson não ganhou muita esmola hoje.

Jeane gosta do pôr-do-sol.

Lucélia e Marinalva dividem o mesmo cobertor.

Para mim é o metrô Santana. Para eles é um abrigo para passar a noite em segurança.

O próximo ponto

Sei lá, ela só estava ali sentada no banco do ônibus, do lado da janela, sem grandes expectativas a respeito daquele fim de tarde. Nada demais. Coisa básica, normal.

Só que, entre uma curva e um farol fechado, quatro caras deram sinal para o ônibus e assim que ele deu partida anunciaram o assalto.

Enquanto um deles segurava uma arma nas costas do motorista, com instruções claras sobre agir normalmente e não parar o ônibus antes do próximo ponto, o segundo pulou a catraca para tirar tudo o que houvesse de valor dos passageiros e o terceiro fazia “a limpa” na caixa do cobrador.

Assim como os demais usuários de transporte público ali presentes, ela entregou a carteira, celular e relógio sem levantar o rosto e já estava achando que tudo ia ficar bem quando o bandido pediu sua aliança de noivado. Aí não aguentou mais, começou a chorar e entregou a aliança.

Encolheu-se na sua janela, soluçante e lacrimosa, querendo que tudo passasse bem rápido, quando o quarto rapaz, que estava na parte da frente do ônibus, percorreu o veículo, como se estivesse inspecionando o serviço dos comparsas.

Pelo jeito ele era o chefe de todos e, ela encolheu-se ainda mais, parou exatamente ao lado dela. Sentindo a boca do estômago se contrair, ela não conseguia forças para erguer os olhos, quando tomou o maior susto da sua vida: Continue lendo

Despedida

Conto de Renatto Neves. Conhece seu blog Textosterona?
Era sábado. Um sábado um pouco diferente dos convencionais. Meio atordoado com a notícia que acabara de receber, ele apenas passou a mão na sua jaqueta preta já surrada pelo tempo e caminhou em direção a porta. Estava tão pensativo que deixou a porta entreaberta com os seus trincos todos desprezados. Não era comum. Ele morava em
um barraco que já fora vítima de alguns arrombamentos. Mas isso não importava. Caminhando na rua pouco  iluminada, logo avista o seu lugar de refúgio: o bar da esquina. Entre gritos de euforia de uma turma que fazia algazarra jogando sinuca, em um gesto discreto cumprimenta o dono do bar, este que sentia que o sujeito não estava bem. Adivinhando a necessidade de seu cliente, Seu Neco, como era conhecido por toda a região, enche um copo com o seu melhor conhaque e oferece ao rapaz, como em um abraço confortante em um filho tentando tapar algum buraco interno. Sem pestanejar, uma golada. Põe a mão no bolso, pega um cigarro, acende. Pede outro copo e começa a
reparar nas pessoas que lhe faziam companhia. Sem nada de atrativo, vira mais um copo em uma única golada e continua sua jornada. Continue lendo

Pecado

_Padre, eu pequei.
_Arrependa-se, filho. E teus pecados serão perdoados.
Silêncio do lado de fora do confessionário. O padre passa o indicador por dentro do colarinho apertado. O calor é sufocante, dentro da cabina.
_Eu amo minha irmã, padre.
_Devemos todos amar aos nossos familiares. Não há pecado nisto. Exceto em caso de incesto. É o seu caso?
_Não, padre. Não é incesto. Mas eu jurei protegê-la de tudo, custe o que custar.
_Atitude louvável, filho. Você como filho, abaixo de seu pai é o homem da casa e é sua responsabilidade proteger sua mãe e sua irmã. Continue lendo

Amigos para siempre…

Estacionei o carro em frente ao local combinado e desliguei o motor do carro. Ele havia me dito: “Esteja aqui em 15 minutos.” Cheguei pontualmente, mas ele ainda não estava me esperando.

Eu, particularmente, duvidava de que ele fosse realmente cumprir o que tinha me dito. Eu ainda tendia a acreditar que o velho Armando, meu amigo de infância, era o mesmo.

O mesmo cara que eu conheci no intervalo da quinta série. Eu um valentão. Ele um cara solitário. Gostava de implicar com ele, mas nunca o agredi fisicamente. No fundo, sabia que ele era gente boa. Continue lendo

Livre Arbítrio

Sete da noite. Hora que os trabalhadores cansados estão voltando para suas casas e se tornam um pouco mais distraídos que o normal. Era a hora que ele saía para trabalhar.

Vestiu-se com uma roupa comum, com cores que não chamassem a atenção e, mentalmente, escolheu uma rua movimentada. Sua profissão exigia discrição.

Ao chegar a tal rua, começou a andar de maneira despretensiosa. Camuflou-se perfeitamente ao enxame de pessoas que invadiam os numerosos bares. Localizou sua vítima: uma mulher se afasta do burburinho para falar ao celular. Ela anda de um lado para o outro, olhando para o chão, parando por alguns segundos e recomeçando os passos em seguida. Uma das mãos segura o aparelho. A outra tampa o ouvido esquerdo. Continue lendo

Epitáfio

_Antes de morrer, meu filho fez seguro de vida – disse a mãe de Júlio ao jornalista. – Pra mim e pro meu caçula, quando ele for de maior.

Antes de morrer, Júlio também se envolveu em uma briga no bar com Walter, traficante e morador do bairro classe média, quando Walter lhe disse para não se meter onde não era chamado, ou iria tocar onde mais doeria em Júlio. A briga foi apartada, mas as juras de vingança partiram de ambos os oponentes. Continue lendo

Redenção

Voltou a si e a primeira coisa que pensou foi: “Há quanto tempo?”

Tentava se mover, mas a dor era imensa. Resolveu esperar a tontura passar.

Escorregou a palma da mão no chão, onde estava caída. Sujou-a com o próprio sangue que havia respingado ali.

O silêncio da casa só era interrompido pelos roncos que vinham do sofá.

“Preciso fazer o café, antes que ele acorde.”

Concentrou a pouca força nos braços e conseguiu erguer o tronco. Mais um bom tempo usando roupas compridas para esconder os hematomas. Estava fazendo muito calor, ultimamente. Mas era melhor do que ficar respondendo às perguntas indiscretas. Continue lendo