Leia-me: Negras Raízes

43750_305Com algumas semanas de Leia-me vocês já devem ter notado que eu tenho alguns padrões para gostar de livros e que um desses padrões é que eles me ensinem sobre a cultura e/ou comportamento de uma sociedade de um determinado local e/ou época.

Sei lá, só sei que sou fascinada por saber como são ou eram os protocolos e pequenos rituais que as pessoas precisam ou precisavam seguir para conviver em uma determinada época ou lugar.

Por isso gosto tanto dos livros do José de Alencar e por isso gostei tanto do livro que sugiro hoje: Negras Raízes de Alex Haley. O autor conta a história da escravidão nos Estados Unidos a partir de sua própria genealogia, começando do seu trisavô, Kunta Kinte, que foi traficado aos EUA como escravo africano e terminando a história em si mesmo. Continue lendo

O Corpo – Final

Este post é o final do conto O Corpo. Leia as partes UM, DOIS, TRÊS e QUATRO antes de prosseguir.

Ainda ficou algum tempo apertando a garganta do cadáver, até ter certeza de que não havia mais nenhum batimento cardíaco. Soltou-a gradativamente sentindo o sangue voltar aos seus dedos, cujas juntas estiveram brancas pela força. Pousou a mão na própria garganta arfante, apavorada pelo que tinha acabado de fazer. Limpou em um gesto de raiva as lágrimas do rosto e recuou se arrastando pelo chão, até o outro canto do quarto.

De lá ficou olhando as pernas imóveis da morta e tentando assimilar o que aconteceria agora. Sentiu náuseas e correu ao banheiro, onde vomitou tudo o que comeu durante a tarde. Finalmente a respiração foi normalizando, junto ao raciocínio. Primeiro precisava ficar atenta aos sons de fora e verificar se alguém havia ouvido alguma coisa. Permaneceu em silêncio e estática por um bom tempo. Não houve nenhuma movimentação que indicasse suspeitas. Continue lendo

O Corpo – Parte 4

Este post é continuação do conto O Corpo. Leia as partes UM, DOIS e TRÊS, antes de prosseguir.

No dia em que matou a colega de quarto, ela acordou cedo e foi caminhar pelo campus.
Era o dia perfeito para acontecer, pois era sexta-feira.

Às sextas-feiras, a garota entrava correndo logo depois da academia, jogava algumas roupas dentro da mala, tomava um banho e corria à rodoviária, para não perder o último ônibus para a cidade vizinha, onde morava o namorado. Então não a procurariam por pelo menos dois dias, até o domingo à noite, que era quando ela normalmente retornava.

Neste dia ela teria somente duas aulas de manhã, já que o professor da aula à tarde estava de licença. Então teria tempo de sobra para preparar o quarto para o ritual, antes que a companheira chegasse em seu afobamento. Continue lendo

O Corpo – Parte 3

Este post é continuação do conto O Corpo. Leia primeiro as partes UM e DOIS, antes de prosseguir.

Não o encontrou em nenhum livro de História, nem mesmo nos de História das Religiões. Estava quase desistindo, quando pensou que procurava nos registros errados. Com breve pesquisa online, encontrou menções do nome em determinados rituais místicos, para alcançar sucesso em projetos. Lembrou-se do local do encontro, que se assemelhava muito à uma ruína medieval, então buscou por bruxaria e Lupercais. Prosseguiu procurando, até ter uma ideia: em vez da grafia, por que não o fonema? Continue lendo

O Corpo – Parte 2

Este post é continuação do conto O Corpo. Leia a primeira parte antes de prosseguir.

Subia ofegante, os degraus do prédio.

Aquele lugar tinha sido sua casa nos últimos anos e refúgio da paixão que foi moldada com o tempo: o oculto.

Durante as aulas aprendeu sobre cultos antigos, deuses misteriosos e sociedades secretas. O assunto cada vez mais despertava seu interesse, até que começou a procurar livros que tratassem de qualquer coisa relacionada a magia e rituais pagãos, participava de palestras e debates sobre ocultismo.

A companheira de quarto não compreendia sua obsessão, que a levava a ter símbolos místicos pintados na parede, pôsteres com encantamentos, imagens relacionadas a diversos rituais de crenças pagãs.

Ela se incomodava, mas não culpava a garota. Ela era atlética, do perfeito estereótipo da bela cheerleader que fazia sucesso pela ala masculina. O pouco tempo que restava das suas horas dedicadas à própria beleza, ela lutava para manter a bolsa da faculdade de fisioterapia. Então sobrava quase nada para entender o que se passava na metade do quarto que não ocupava. Continue lendo

O Corpo

O último livro estava lá, levemente empoeirado, como sempre. Não era sorte. Aqueles corredores da biblioteca eram pouco frequentados. Depositou a bolsa no chão e subiu os degraus da escadinha móvel para alcançá-lo, enquanto segurava a coxinha entre os dentes.

Quase perdeu o equilíbrio enquanto descia. Apoiou-se na estante e ouviu, com amargura, a madeira estalar sob seu peso.

Pôs a bolsa no ombro, ao mesmo tempo que o livro caiu de sua mão. Curvou-se para pegá-lo e a alça da bolsa pendeu de seu ombro. O breve instante de dúvida, se pegava o livro ou segurava a bolsa, a desestabilizou e tudo foi ao chão. Até a coxinha.

Praguejando, abaixou-se com dificuldade, pegou a bolsa, o livro e a coxinha. Embrulhou a última no guardanapo, recolhendo os pequenos restos de frango que se espalharam, endireitou o corpo com um suspiro e retomou o caminho de volta. Continue lendo

Despedida

Conto de Renatto Neves. Conhece seu blog Textosterona?
Era sábado. Um sábado um pouco diferente dos convencionais. Meio atordoado com a notícia que acabara de receber, ele apenas passou a mão na sua jaqueta preta já surrada pelo tempo e caminhou em direção a porta. Estava tão pensativo que deixou a porta entreaberta com os seus trincos todos desprezados. Não era comum. Ele morava em
um barraco que já fora vítima de alguns arrombamentos. Mas isso não importava. Caminhando na rua pouco  iluminada, logo avista o seu lugar de refúgio: o bar da esquina. Entre gritos de euforia de uma turma que fazia algazarra jogando sinuca, em um gesto discreto cumprimenta o dono do bar, este que sentia que o sujeito não estava bem. Adivinhando a necessidade de seu cliente, Seu Neco, como era conhecido por toda a região, enche um copo com o seu melhor conhaque e oferece ao rapaz, como em um abraço confortante em um filho tentando tapar algum buraco interno. Sem pestanejar, uma golada. Põe a mão no bolso, pega um cigarro, acende. Pede outro copo e começa a
reparar nas pessoas que lhe faziam companhia. Sem nada de atrativo, vira mais um copo em uma única golada e continua sua jornada. Continue lendo

O Condenado

Olá, querida.

Eu sei que estas palavras nunca chegarão ao seu conhecimento, mas eu preciso delas. Talvez seja aquele prazer masoquista – que você bem conhece – que me faz relembrar incessantemente da minha dor, só por senti-la novamente, já que onde estou nem o alívio do desabafo me é concedido.

Não estou tão longe de você quanto imagina. Ou quanto gostaria que eu estivesse. E pode ser que até eu mesmo gostaria de estar bem longe daqui. Mas não posso me afastar. Preciso estar perto de você o tempo todo. Ouvir sua voz. Acompanhar o seu dia. Continue lendo

Redenção

Voltou a si e a primeira coisa que pensou foi: “Há quanto tempo?”

Tentava se mover, mas a dor era imensa. Resolveu esperar a tontura passar.

Escorregou a palma da mão no chão, onde estava caída. Sujou-a com o próprio sangue que havia respingado ali.

O silêncio da casa só era interrompido pelos roncos que vinham do sofá.

“Preciso fazer o café, antes que ele acorde.”

Concentrou a pouca força nos braços e conseguiu erguer o tronco. Mais um bom tempo usando roupas compridas para esconder os hematomas. Estava fazendo muito calor, ultimamente. Mas era melhor do que ficar respondendo às perguntas indiscretas. Continue lendo

Enjoy the silence – final

Ele caiu do tronco quase desfalecido. E disse-me as palavras que nunca vou esquecer:

_Meu coração sempre baterá por Sinhazinha.

A fúria me tomou de tal forma, que chutei-lhe o rosto e pude ouvir o som de seu nariz se quebrando.

_Mate-o – ordenei ao feitor.

Ele me olhou aparvalhado.

_Mate-o logo. Mate logo essa besta nojenta, antes que você tenha o mesmo destino que ele!

Ele tirou o revólver do cinturão e eu o impedi.

_Não! Arranque o coração dele!

O feitor gaguejou, começou a tremer. Balbuciou qualquer coisa de que era muita crueldade. Eu nem ouvia apenas esperava, com os punhos cerrados e os lábios comprimidos. Continue lendo