Remendado

letitgoAcordou com uma tristeza que não era natural dela.

Ainda deitada, tentou se lembrar do que sonhou. Não lembrou. Mas pelo vazio inconveniente que sentia, o sonho era mesmo o causador da melancolia.

Resolveu que não adiantava ficar se lamentando, espreguiçou e levou o vazio para fora da cama, alongando os membros.

Enquanto escovava os dentes se lembrou do dia em que encontrou o ex-namorado pela última vez. Eles ainda não sabiam que aquela seria a última vez que se veriam mas, depois do amor, repentinamente ela sentiu vontade de chorar. Não havia motivos para isso e nunca havia acontecido antes. Para que ele não percebesse seus olhos cheios de lágrimas o abraçou, até que conseguisse se controlar. Agora sabia que esse acontecimento, aparentemente inexplicável, fora sua intuição avisando-a de que tudo iria terminar. Continuar lendo

Uma história engraçada

Hoje tenho uma história muito engraçada para contar para vocês, a respeito de uma amiga minha.

Nos conhecemos quando nós duas ainda estávamos na oitava série (ginásio, para os mais velhos), mas só fomos ficar amigas mesmo no primeiro ano do colégio (segundo grau, para os mais velhos). Continuar lendo

Presente

Eram três da tarde, quando entrou na loja estranha.

A semanas passava quase diariamente por aquela porta estreita e espiava, curioso, pelo corredor escuro e coberto de relógios por todos os lados.

Tinha vontade de entrar lá, algum dia, para dar uma “olhadinha”, coisa que faria em qualquer loja. O engraçado é que o impulso sempre era reprimido pela consciência de que não precisava do que era vendido ali, embora o único relógio que possuía era o que aparecia na tela de descanso do celular. Inconscientemente sabia que aquele corredor vendia mais do que relógios. Continuar lendo

Caixas

Abri a primeira caixa com um leve cheiro de mofo, onde estavam guardados meus ursos de pelúcia. A primeira reação foi uma certa ternura, vindoura dos meus tempos de infância. A segunda foi uma crise de espirros. Esses ursos agora vão secar as lágrimas de outra garota.

Na outra caixa encontrei muitos presentes que ganhei em uma festa de aniversário. Vários deles nunca saídos das caixas. Guardei apenas os cartões com os votos. Uma coisa ou outra separei, por afeição ou utilidade futura.

A terceira caixa doeu mais. Brinquedos velhos, álbuns de fotos, livros infantis. Todos me trazendo uma enxurrada de lembranças que eu gostaria que tivessem ficado encaixotadas com eles, em algum lugar bastante fora do meu alcance. Mas, secando o rosto com as costas das mãos, olhei para a minha boneca favorita e não tive forças de colocá-la para doação. Alguns objetos ali me trouxeram algo que quase não sinto da minha época de criança: saudade. Então também separei. Continuar lendo

Presença

Acordou de madrugada e a preguiça não permitiu que abrisse os olhos.Esfregou o rosto, coçou as pálpebras e virou para o outro lado para voltar a dormir, quando suas mãos apalparam o vazio ainda morno, do outro lado da cama. Então abriu os olhos.

O lençol branco e revolto ainda guardava o calor do corpo que esteve ali deitado nos últimos minutos. A cabeça, que repousava naquele travesseiro, havia esquecido alguns fios lisos e louros.

Houve um ruído de água no banheiro, então ele sorriu levemente, feliz por tê-la ao seu lado.
Era bom acordar de madrugada, com a cama vazia, e saber que ela estaria de volta em poucos minutos, usando uma camisa sua para esconder o corpo nu.

Traria do banheiro o seu perfume de baunilha, as mãos geladas por terem sido lavadas. Ou então o calor do chuveiro na pele macia e coberta de penugem fina.

Quis que o banho acabasse logo, para que ela voltasse e o envolvesse com os braços delicados. Provavelmente sussurraria desculpas em seu ouvido, por tê-lo acordado. De certa forma ele gostava dessa ausência que logo seria preenchida pelo brilho que ela trazia para sua vida. Continuar lendo

Satisfação

Enquanto subiam as escadas para o primeiro andar, ela sentia o celular pressionando-lhe a nádega, de dentro do bolso traseiro. Depositou as malas que carregava em cima da cama e virou-se para ajudar o namorado, que trazia as mais pesadas. Ele sorriu agradecido e deixou um beijo leve em seus lábios. Ela sorriu de volta.Ele voltou para trancar o carro e ela se sentou nos degraus da varanda. O rapaz avisou que iria tomar um banho e ela acenou com a cabeça.Tirou o celular do bolso e ficou olhando-o por um bom tempo, mas só teve coragem de discar os primeiros números quando ouviu a porta do banheiro se trancando.Ouviu chamar uma e duas vezes. Desistiu constrangida, desligando o telefone. Já tinha se arrependido do gesto, quando o celular tocou. O mesmo número que havia discado, minutos antes, piscava insistentemente na tela. Decidiu atender no último toque antes da ligação cair na caixa postal e a voz falhou no “alô”. Continuar lendo

Um amor de verdade

Eu sempre fui a garota dos clichês.

Aquela que sempre acreditou que um clichê tem mais do que o óbvio a nos dizer. Sempre acreditei que um clichê dito é apenas isso, algo que todo mundo já sabe. Mas um clichê vivido deixa de ser apenas uma frase feita, para ganhar uma nova essência, dessa vez unido à experiência. À sua pessoal e íntima experiência.

E embora, quando escrevo, eu busque fugir dos lugares comuns tudo o que sempre quis na vida foi viver um clichê. Não canso de repetir que a felicidade está na simplicidade, na busca e não no fim. Seres humanos nunca deixam de querer. Sempre estão em busca, ambicionando, desejando. E não percebem que a felicidade é justamente esta: lutar, correr atrás, querer, trabalhar. A conquista é o êxtase, mas é passageira. Não traz felicidade. E é por isso que eu nunca quis apenas um amor, mas um parceiro de viagem. Continuar lendo

A razão

Desculpa interromper o seu feriado, mas é que a saudade não me dá um minuto de trégua.

Me acostumei a fazer parte dos seus dias e agora não é mais a mesma coisa dormir, sem a certeza de que no meio da noite você vai me puxar pra perto de si e aninhar entre seus braços.

É que eu quero te contar sobre cada vez que o tempo muda por aqui. Porque tá frio e você prefere o frio, não é? E quando chove eu lembro de você dizendo, irônico, que estava odiando ter que passar o dia na cama comigo.

Tentei ouvir umas músicas pra passar o tempo, mas minha playlist está toda impregnada de momentos nossos. E os momentos ociosos, eu queria passar vendo algum filme que você baixou ou aquela série engraçadinha que passa toda hora na sua nova tv gigante, sabendo que só tenho que ir até ali na sala pra te ver. Até mesmo o cheiro da minha própria pele me trai, porque falta o cheiro do seu suor misturado nele. Continuar lendo

Memórias de 2010

Então encerramos mais um ciclo.
E acredito que a partir do momento em que o ser humano teve consciência da sua consciência, conscientemente ou não, acaba parando para repensar todos os seus atos, conquistas, tentativas e erros. Da mesma forma que, assim que começou a marcar o tempo de sua existência, deixou esse exercício mental para o encerramento dos ciclos.
Voltas e mais voltas para introduzir o que chamamos de retrospectiva.
Estes ciclos que eu estou encerrando [plural pois, além do final do ano geral, em breve eu também completarei outro ano da minha existência] foram de acontecimentos ímpares. Foi o ano em que me formei. O ano em que tentei diversas vezes e diversas coisas. E não conquistei nenhuma delas. Mas foi o ano em que mais descobri coisas e que aquela pessoa que existia dentro de mim, sufocada por pequenos e grandes medos, cresceu, apareceu, tomou forma e se impôs como quem eu realmente sou. Continuar lendo

Unhappily ever after

Era uma vez uma princesa.
Ela vivia num belo reino, cercada de lindas paisagens e animais falantes, mas como toda princesa que se preze, ela sentiu que ainda lhe faltava alguma coisa.
Em uma viagem para uma terra distante, ela conheceu um belo príncipe e eles se apaixonaram. Então ela descobriu o que lhe faltava: era o amor.
Passaram momentos lindos e românticos, juntos. Trocaram juras de amor eterno.
Um dia, já de volta em seu reino, a princesa foi sequestrada por uma bruxa muito má, que lhe largou sozinha em uma torre escura e fria.
A princesa não teve medo da bruxa. Ela tinha certeza que logo ouviria o ecoar dos cascos do cavalo branco pelo caminho de pedra e o seu amado príncipe viria lhe salvar da solidão.
Quanto à Solidão, ela não a temia. Já estava habituada a esta companheira fiel, nos intermiáveis dias vividos em seu quarto enorme e luxuoso, no castelo dos pais.
Porém, noites e noites se passaram. A Solidão era quem deitava ao seu lado e a única a ver suas lágrimas.
O príncipe nunca apareceu para salvá-la.
Fim.