O Corpo – Parte 3

Este post é continuação do conto O Corpo. Leia primeiro as partes UM e DOIS, antes de prosseguir.

Não o encontrou em nenhum livro de História, nem mesmo nos de História das Religiões. Estava quase desistindo, quando pensou que procurava nos registros errados. Com breve pesquisa online, encontrou menções do nome em determinados rituais místicos, para alcançar sucesso em projetos. Lembrou-se do local do encontro, que se assemelhava muito à uma ruína medieval, então buscou por bruxaria e Lupercais. Prosseguiu procurando, até ter uma ideia: em vez da grafia, por que não o fonema? Continuar lendo

O Corpo – Parte 2

Este post é continuação do conto O Corpo. Leia a primeira parte antes de prosseguir.

Subia ofegante, os degraus do prédio.

Aquele lugar tinha sido sua casa nos últimos anos e refúgio da paixão que foi moldada com o tempo: o oculto.

Durante as aulas aprendeu sobre cultos antigos, deuses misteriosos e sociedades secretas. O assunto cada vez mais despertava seu interesse, até que começou a procurar livros que tratassem de qualquer coisa relacionada a magia e rituais pagãos, participava de palestras e debates sobre ocultismo.

A companheira de quarto não compreendia sua obsessão, que a levava a ter símbolos místicos pintados na parede, pôsteres com encantamentos, imagens relacionadas a diversos rituais de crenças pagãs.

Ela se incomodava, mas não culpava a garota. Ela era atlética, do perfeito estereótipo da bela cheerleader que fazia sucesso pela ala masculina. O pouco tempo que restava das suas horas dedicadas à própria beleza, ela lutava para manter a bolsa da faculdade de fisioterapia. Então sobrava quase nada para entender o que se passava na metade do quarto que não ocupava. Continuar lendo

O Corpo

O último livro estava lá, levemente empoeirado, como sempre. Não era sorte. Aqueles corredores da biblioteca eram pouco frequentados. Depositou a bolsa no chão e subiu os degraus da escadinha móvel para alcançá-lo, enquanto segurava a coxinha entre os dentes.

Quase perdeu o equilíbrio enquanto descia. Apoiou-se na estante e ouviu, com amargura, a madeira estalar sob seu peso.

Pôs a bolsa no ombro, ao mesmo tempo que o livro caiu de sua mão. Curvou-se para pegá-lo e a alça da bolsa pendeu de seu ombro. O breve instante de dúvida, se pegava o livro ou segurava a bolsa, a desestabilizou e tudo foi ao chão. Até a coxinha.

Praguejando, abaixou-se com dificuldade, pegou a bolsa, o livro e a coxinha. Embrulhou a última no guardanapo, recolhendo os pequenos restos de frango que se espalharam, endireitou o corpo com um suspiro e retomou o caminho de volta. Continuar lendo

Dia das Crianças: O Festival da Primavera

Na hora de escolher a foto pro avatar de dia das crianças, comecei a rir sozinha ao lembrar de toda a história por trás da foto da flor laranja e ela acabou se escolhendo sozinha. “É esta!”
Quando as professoras da educação infantil do Colégio Palmarino Calabrez começaram a organizar o Festival da Primavera de 93, separaram, em seus conceitos retrógrados e nada democráticos, as meninas em três categorias bem claras: as com altura acima da média seriam borboletas. As meninas de altura mediana seriam flores. E as que costumavam ocupar as quatro primeiras posições pra fila do recreio seriam joaninhas.
Adivinha em qual categoria eu fiquei? Pois é.
Mãs, revolucionária e agitadora como sempre, eu reinvidiquei meus direitos de vestir a fantasia que me apetecesse, o que não teve nada a ver com o fato de todos os collans pretos size PPP da cidade terem desaparecido e minha mãe só ter encontrado um collan verde no meu tamanho. Fiquei sendo flor. Continuar lendo

Despedida

Conto de Renatto Neves. Conhece seu blog Textosterona?
Era sábado. Um sábado um pouco diferente dos convencionais. Meio atordoado com a notícia que acabara de receber, ele apenas passou a mão na sua jaqueta preta já surrada pelo tempo e caminhou em direção a porta. Estava tão pensativo que deixou a porta entreaberta com os seus trincos todos desprezados. Não era comum. Ele morava em
um barraco que já fora vítima de alguns arrombamentos. Mas isso não importava. Caminhando na rua pouco  iluminada, logo avista o seu lugar de refúgio: o bar da esquina. Entre gritos de euforia de uma turma que fazia algazarra jogando sinuca, em um gesto discreto cumprimenta o dono do bar, este que sentia que o sujeito não estava bem. Adivinhando a necessidade de seu cliente, Seu Neco, como era conhecido por toda a região, enche um copo com o seu melhor conhaque e oferece ao rapaz, como em um abraço confortante em um filho tentando tapar algum buraco interno. Sem pestanejar, uma golada. Põe a mão no bolso, pega um cigarro, acende. Pede outro copo e começa a
reparar nas pessoas que lhe faziam companhia. Sem nada de atrativo, vira mais um copo em uma única golada e continua sua jornada. Continuar lendo

A arte

Um dia aquilo foi uma farmácia. No outro amanheceu vazio e com tábuas tampando parcialmente a sua fachada.

A mudança foi rápida e eu pude acompanhar todos os estágios da reforma. Vi os homens fortes chegarem, lixarem as paredes judiadas e recobrirem-nas caprichosamente de gesso. Estive lá quando chegaram as prateleiras de madeira clara. Acompanhei o difícil processo de escolha da decoração.

Aos poucos, aquele prédio de aparência decadente, que abrigou gôndolas de remédios, começou a se tornar uma fina loja de finos sapatos.

E das mãos grosseiras daqueles homens brutos surgia um lugar delicado, que exalava luxo e sofisticação.

Trabalhando dia após dia, eles construíram um espaço desenhado especialmente para pessoas que nunca se lembrarão de pensar nos dedos calejados que ironicamente o tornaram tão belo. Continuar lendo

Parasitas

Tinha cinco anos e a mãe o levou para o playground do parque. A tia acompanhou porque elas tinham muito o que conversar. Para ele a novidade era achar o parquinho vazio. Ter o balanço só pra ele e o escorrega sem fila.

Afastou-se dos bancos onde a mãe e a tia sentaram e começou brincando de fazer montinhos de areia. Ainda era cedo e a areia estava molhada do sereno. Depois de cansar dos montinhos, deixou-se cair sentado e mirou o céu azul por alguns minutos. Não pensou muito no tamanho daquilo, ou de onde vinha aquela cor. Só lembrou-se da mãe apontando pra imensidão quando contou do lugar onde a avó estava morando agora. Continuar lendo

O Necessitado

Olho mais uma vez para o relógio, tentando segurar os minutos finais do meu horário de almoço que fogem ao meu controle. Remexo a xícara de café com o último gole já frio. Sei que pode parecer idiotice, mas pra mim o almoço só se acaba com o fim do café e por isso eu estava enrolando com o resto.

Estava quase desistindo do café frio, quando um garoto maltrapilho adentra a galeria onde normalmente almoço. A reação do segurança é enxotá-lo de lá, mas o garoto já é velho de guerra e consegue driblar a vigilância do guarda assim que este vira as costas.

Para na mesinha onde um grupo de idosos joga buraco e puxa a manga de um dos homens.

_Tio, o senhor não quer… Continuar lendo

(Re)Viver

Foi quando eu percebi que minha vida é alimentada de sorrisos. De pequenas novidades.

Dos primeiros passos, das primeiras palavras.

Da florzinha da praguinha que surgiu no meu quintal.

Minha vida é alimentada de conversas. Longas, curtas. Com crianças, jovens, idosos, amigos, familiares, desconhecidos.

E de abraços: o mágico gesto que doa e recebe ao mesmo tempo. Continuar lendo

Enjoy the silence – final

Ele caiu do tronco quase desfalecido. E disse-me as palavras que nunca vou esquecer:

_Meu coração sempre baterá por Sinhazinha.

A fúria me tomou de tal forma, que chutei-lhe o rosto e pude ouvir o som de seu nariz se quebrando.

_Mate-o – ordenei ao feitor.

Ele me olhou aparvalhado.

_Mate-o logo. Mate logo essa besta nojenta, antes que você tenha o mesmo destino que ele!

Ele tirou o revólver do cinturão e eu o impedi.

_Não! Arranque o coração dele!

O feitor gaguejou, começou a tremer. Balbuciou qualquer coisa de que era muita crueldade. Eu nem ouvia apenas esperava, com os punhos cerrados e os lábios comprimidos. Continuar lendo