Apenas

Ela se vestia como qualquer senhora da sua idade. Nela tudo era branco: as calças, a camisa de seda e os cabelos cortados em um chanel. Sem um fio de outra cor, apenas cabelos brancos. Entrou na livraria olhando ao redor, procurando algo ou alguém que a ajudasse.

O rapaz sentado na poltrona vestia camisa e calça social. Gravata não. O cabelo cuidadosamente penteado para o lado mostrava que não era do tipo ousado, que assumia riscos. Gostava de ficar ali sentado, apenas para fugir.

A mulher idosa passou pelo rapaz e se sentou ao lado de uma garota de vermelho, cabelos curtos e olhos azuis. Não as íris. Apenas as pálpebras. Estavam pintadas. Ela estava armada de caderno e caneta. Um perigo. Continuar lendo

Uma história engraçada

Hoje tenho uma história muito engraçada para contar para vocês, a respeito de uma amiga minha.

Nos conhecemos quando nós duas ainda estávamos na oitava série (ginásio, para os mais velhos), mas só fomos ficar amigas mesmo no primeiro ano do colégio (segundo grau, para os mais velhos). Continuar lendo

Fada

Houve, certa vez, um fenômeno curioso em certa colônia de lagartas, que procuravam uma maneira de se proteger dos predadores.

Com medo de alçarem vôo, ser caçadas por pássaros e tornarem-se alvos fáceis por conta das cores de suas asas, começaram a encruar sua metamorfose e tornavam-se qualquer coisa entre um casulo e uma larva.

Com isso, a população rastejante permaneceu abrigada em seu tronco de árvore, sempre convencendo as crianças a seguirem seu exemplo e não se metamorfosearem completamente. Surpreendentemente, seu sistema reprodutor se desenvolvia e a espécie sobreviveu e cresceu, embora incompletas, reproduzindo-se entre si mesmos.

Até o dia em que um ovo foi botado virado para o céu. E quando a larva eclodiu, a primeira coisa que seus olhos turvos viram, foi a luz do sol atravessando duas folhas da copa da árvore. Continuar lendo

Verão

O calor era tão grande que o silêncio reinava sob o sol a pino.Os animais se escondiam debaixo das copas das árvores, buscando por qualquer réstia de sombra que pudesse lhes proporcionar frescor. Muitos se deitavam nas águas rasas do riacho para refrescar e todos evitavam subir nas pedras, tão quentes que era possível ver a quentura subindo em ondas inquietas.

A madeira das árvores antigas, e já mortas, expandia e estalava com o calor. O ar estava cálido e parado, como se todo o bosque estivesse envolto em um espaço fechado como uma estufa.
Seria impossível continuar suportando aquilo, se próximo ao início da tarde uma leve brisa não começasse a balançar as folhas da vegetação.

Algumas horas mais tarde e a brisa já havia se transformado em vento, que forçava as árvores a curvarem seus troncos a seu gosto, todas envolvidas na mesma força e no mesmo ritmo.

Os pássaros tentavam lutar contra as forças da natureza, mas o esforço apenas os mantinha voando no mesmo lugar, até que desistiam e se deixavam planar exaustos, a favor do vento. Continuar lendo

Aparência

Estávamos eu e a amiga, sentadas no banco em frente àquela livraria grande da Augusta (sempre ela, a livraria), conversando sobre assuntos aleatórios e irrelevantes, quando ele nos abordou.Cabelos por cortar e totalmente desgrenhados em torno da careca reluzente, vários dentes a menos, roupas surradas, sandálias gastas e muitas sacolas nas mãos. Não nos pediu dinheiro. Apontou um dedo na nossa cara e disparou: “Vocês viram o que aqueles desgraçados da câmara aprovaram hoje?”

Um pouco atordoadas pela aparição brusca, arriscamos as críticas seguras: “Pois é, aquilo ali é uma merda mesmo.” E ele prosseguiu despejando informações e opiniões que me deixaram envergonhada por não estar inteirada de um assunto tão grave. Continuar lendo

Um amor de verdade

Eu sempre fui a garota dos clichês.

Aquela que sempre acreditou que um clichê tem mais do que o óbvio a nos dizer. Sempre acreditei que um clichê dito é apenas isso, algo que todo mundo já sabe. Mas um clichê vivido deixa de ser apenas uma frase feita, para ganhar uma nova essência, dessa vez unido à experiência. À sua pessoal e íntima experiência.

E embora, quando escrevo, eu busque fugir dos lugares comuns tudo o que sempre quis na vida foi viver um clichê. Não canso de repetir que a felicidade está na simplicidade, na busca e não no fim. Seres humanos nunca deixam de querer. Sempre estão em busca, ambicionando, desejando. E não percebem que a felicidade é justamente esta: lutar, correr atrás, querer, trabalhar. A conquista é o êxtase, mas é passageira. Não traz felicidade. E é por isso que eu nunca quis apenas um amor, mas um parceiro de viagem. Continuar lendo

Divã

Oi! Há quanto tempo não nos vemos, heim? Senta aqui, por favor. Puxa as almofadas pra lá, que aí dá até pra deitar.

Tá servido de suco? Tem água também. Eu não tenho café, não tomo. Vou ficar devendo.

Eu tô tentando escrever um pouco, pra ver se organizo as ideias do que tem acontecido ultimamente, mas tá foda. Minha cabeça tá meio zoada. Tive duas crises de enxaqueca só na última semana.

O que você tem feito? Tem aproveitado o dia, o sol, a família? Pois é… São coisas que a gente não costuma se dar conta, a não ser que não as tenha mais ao alcance. A gente só sente falta do dia depois que anoitece e do sol, quando tá aquela chuvinha sacana que gela até o pensamento. De família o buraco é mais embaixo Continuar lendo

Imortalidade

Acordei com a pressão nos pés da cama.

Meio sonolenta, esfreguei os olhos tentando reconhecer a silhueta que ali estava sentada.

Uma voz feminina soou em meus pensamentos com sarcasmo:

_Sabe o que é mais irônico? Que mesmo você sendo a minha criadora, sua existência é efêmera. Enquanto eu, renascerei todas as vezes que alguém revirar as páginas que você escreveu.

Soltou no silêncio da noite sua gargalhada cristalina, ao mesmo tempo em que se recolheu dos meus olhos para minha mente, onde era seu devido lugar.

Sorri condescendente, sabendo que felizmente ela estava certa.

Memórias de 2010

Então encerramos mais um ciclo.
E acredito que a partir do momento em que o ser humano teve consciência da sua consciência, conscientemente ou não, acaba parando para repensar todos os seus atos, conquistas, tentativas e erros. Da mesma forma que, assim que começou a marcar o tempo de sua existência, deixou esse exercício mental para o encerramento dos ciclos.
Voltas e mais voltas para introduzir o que chamamos de retrospectiva.
Estes ciclos que eu estou encerrando [plural pois, além do final do ano geral, em breve eu também completarei outro ano da minha existência] foram de acontecimentos ímpares. Foi o ano em que me formei. O ano em que tentei diversas vezes e diversas coisas. E não conquistei nenhuma delas. Mas foi o ano em que mais descobri coisas e que aquela pessoa que existia dentro de mim, sufocada por pequenos e grandes medos, cresceu, apareceu, tomou forma e se impôs como quem eu realmente sou. Continuar lendo

Unhappily ever after

Era uma vez uma princesa.
Ela vivia num belo reino, cercada de lindas paisagens e animais falantes, mas como toda princesa que se preze, ela sentiu que ainda lhe faltava alguma coisa.
Em uma viagem para uma terra distante, ela conheceu um belo príncipe e eles se apaixonaram. Então ela descobriu o que lhe faltava: era o amor.
Passaram momentos lindos e românticos, juntos. Trocaram juras de amor eterno.
Um dia, já de volta em seu reino, a princesa foi sequestrada por uma bruxa muito má, que lhe largou sozinha em uma torre escura e fria.
A princesa não teve medo da bruxa. Ela tinha certeza que logo ouviria o ecoar dos cascos do cavalo branco pelo caminho de pedra e o seu amado príncipe viria lhe salvar da solidão.
Quanto à Solidão, ela não a temia. Já estava habituada a esta companheira fiel, nos intermiáveis dias vividos em seu quarto enorme e luxuoso, no castelo dos pais.
Porém, noites e noites se passaram. A Solidão era quem deitava ao seu lado e a única a ver suas lágrimas.
O príncipe nunca apareceu para salvá-la.
Fim.