Lar

Neusa tem olhos verdes.

Cida prefere vermelho.

João adora cães. Cuida de oito.

Marluci odeia o frio.

Antônio é poeta.

José não sabe ler.

Janilson perdeu o pai quando ainda era adolescente.

Roberval era pedreiro.

Maria tem pesadelos todas as noites.

Clécio é esquizofrênico.

Janice já foi violentada.

Gilmar também.

Hudson tem dor de dentes há anos.

Elba sente falta do sabor do sorvete de creme, que tomava na sorveteria perto da casa da avó.

Manoel nem se lembra de como é a sensação de um banho quente.

Miguel perdeu o saxofone e a dignidade.

Denílson vai morrer de cirrose.

Catarina nunca ficou sóbria.

Baltazar não tem uma perna.

Vandersson não ganhou muita esmola hoje.

Jeane gosta do pôr-do-sol.

Lucélia e Marinalva dividem o mesmo cobertor.

Para mim é o metrô Santana. Para eles é um abrigo para passar a noite em segurança.

Despedida

Conto de Renatto Neves. Conhece seu blog Textosterona?
Era sábado. Um sábado um pouco diferente dos convencionais. Meio atordoado com a notícia que acabara de receber, ele apenas passou a mão na sua jaqueta preta já surrada pelo tempo e caminhou em direção a porta. Estava tão pensativo que deixou a porta entreaberta com os seus trincos todos desprezados. Não era comum. Ele morava em
um barraco que já fora vítima de alguns arrombamentos. Mas isso não importava. Caminhando na rua pouco  iluminada, logo avista o seu lugar de refúgio: o bar da esquina. Entre gritos de euforia de uma turma que fazia algazarra jogando sinuca, em um gesto discreto cumprimenta o dono do bar, este que sentia que o sujeito não estava bem. Adivinhando a necessidade de seu cliente, Seu Neco, como era conhecido por toda a região, enche um copo com o seu melhor conhaque e oferece ao rapaz, como em um abraço confortante em um filho tentando tapar algum buraco interno. Sem pestanejar, uma golada. Põe a mão no bolso, pega um cigarro, acende. Pede outro copo e começa a
reparar nas pessoas que lhe faziam companhia. Sem nada de atrativo, vira mais um copo em uma única golada e continua sua jornada. Continue lendo

A arte

Um dia aquilo foi uma farmácia. No outro amanheceu vazio e com tábuas tampando parcialmente a sua fachada.

A mudança foi rápida e eu pude acompanhar todos os estágios da reforma. Vi os homens fortes chegarem, lixarem as paredes judiadas e recobrirem-nas caprichosamente de gesso. Estive lá quando chegaram as prateleiras de madeira clara. Acompanhei o difícil processo de escolha da decoração.

Aos poucos, aquele prédio de aparência decadente, que abrigou gôndolas de remédios, começou a se tornar uma fina loja de finos sapatos.

E das mãos grosseiras daqueles homens brutos surgia um lugar delicado, que exalava luxo e sofisticação.

Trabalhando dia após dia, eles construíram um espaço desenhado especialmente para pessoas que nunca se lembrarão de pensar nos dedos calejados que ironicamente o tornaram tão belo. Continue lendo

Visão

Quando chegamos na estação terminal, os demais passageiros mal respeitaram sua bengala e as pálpebras murchas que cobriam as órbitas vazias.

Prendi a respiração no instante em que ele ultrapassou hesitante pelo vão entre o trem e a plataforma.

Sanfoneiro de Mogi. Cego.

Corri até ele e toquei em seu ombro.

_Está esperando por alguém?

_Deve haver algum funcionário por aqui.

_Não vejo ninguém. Para onde está indo?

_Metrô.

_Posso ajudá-lo até lá. É para onde vou.

Não esperei que respondesse. Tomei-lhe a mão nos braços e num segundo egoísta, fui feliz por poder emprestar-lhe meus olhos. Continue lendo

O Necessitado

Olho mais uma vez para o relógio, tentando segurar os minutos finais do meu horário de almoço que fogem ao meu controle. Remexo a xícara de café com o último gole já frio. Sei que pode parecer idiotice, mas pra mim o almoço só se acaba com o fim do café e por isso eu estava enrolando com o resto.

Estava quase desistindo do café frio, quando um garoto maltrapilho adentra a galeria onde normalmente almoço. A reação do segurança é enxotá-lo de lá, mas o garoto já é velho de guerra e consegue driblar a vigilância do guarda assim que este vira as costas.

Para na mesinha onde um grupo de idosos joga buraco e puxa a manga de um dos homens.

_Tio, o senhor não quer… Continue lendo

Redenção

Voltou a si e a primeira coisa que pensou foi: “Há quanto tempo?”

Tentava se mover, mas a dor era imensa. Resolveu esperar a tontura passar.

Escorregou a palma da mão no chão, onde estava caída. Sujou-a com o próprio sangue que havia respingado ali.

O silêncio da casa só era interrompido pelos roncos que vinham do sofá.

“Preciso fazer o café, antes que ele acorde.”

Concentrou a pouca força nos braços e conseguiu erguer o tronco. Mais um bom tempo usando roupas compridas para esconder os hematomas. Estava fazendo muito calor, ultimamente. Mas era melhor do que ficar respondendo às perguntas indiscretas. Continue lendo

(Re)Viver

Foi quando eu percebi que minha vida é alimentada de sorrisos. De pequenas novidades.

Dos primeiros passos, das primeiras palavras.

Da florzinha da praguinha que surgiu no meu quintal.

Minha vida é alimentada de conversas. Longas, curtas. Com crianças, jovens, idosos, amigos, familiares, desconhecidos.

E de abraços: o mágico gesto que doa e recebe ao mesmo tempo. Continue lendo

All we need is love…

IMG_1648Depois de esperar o que me pareceu uma eternidade, com meu bebê pesando cada vez mais em meu colo, finalmente o meu ônibus chegou. Lotado. Não que eu realmente me importasse com a quantidade de pessoas no ônibus, já que haviam assentos reservados para quem tem crianças de colo.

Alguns passageiros que estavam em pé nas portas saíram do ônibus para me dar passagem. Um senhor gentil segurou minha bolsa, para que eu pudesse me apoiar no corrimão. Quando finalmente consegui entrar, me deparei com os assentos reservados todos ocupados por idosos. Somente em um havia uma moça sentada com um rapaz retardado. Foi justamente a moça quem se levantou. Continue lendo