Caixas

Abri a primeira caixa com um leve cheiro de mofo, onde estavam guardados meus ursos de pelúcia. A primeira reação foi uma certa ternura, vindoura dos meus tempos de infância. A segunda foi uma crise de espirros. Esses ursos agora vão secar as lágrimas de outra garota.

Na outra caixa encontrei muitos presentes que ganhei em uma festa de aniversário. Vários deles nunca saídos das caixas. Guardei apenas os cartões com os votos. Uma coisa ou outra separei, por afeição ou utilidade futura.

A terceira caixa doeu mais. Brinquedos velhos, álbuns de fotos, livros infantis. Todos me trazendo uma enxurrada de lembranças que eu gostaria que tivessem ficado encaixotadas com eles, em algum lugar bastante fora do meu alcance. Mas, secando o rosto com as costas das mãos, olhei para a minha boneca favorita e não tive forças de colocá-la para doação. Alguns objetos ali me trouxeram algo que quase não sinto da minha época de criança: saudade. Então também separei. Continuar lendo

A caixa de óculos

_Você precisa trocar sua caixinha do óculos.
Sorri discretamente e alisei a embalagem de acrílico, já trincada e cheia de riscos. Na tampa, um adesivo do Bob Esponja meio gasto pelo atrito com os outros objetos que infestam a bolsa feminina.
_Troco os óculos, mas não troco a caixa.
A maioria não entende todo esse apego, mas a questão não é a caixa. É o adesivo. Há tanto tempo colado, que se despedaçaria à menor tentativa de descolá-lo.
Nele, o Bob Esponja saltita, com os braços carregados de corações e espalha-os pelo caminho em que passa.
No dia em que meu amigo me deu aquele adesivo, estávamos ambos sentados lado a lado na sala de aula, no primeiro semestre da faculdade e eu ria de seu caderno do Bob Esponja.
_E esse caderno de quinta série, heim?
_O Bob é o melhor, cara! Você também gosta dele?
Eu ria do rapaz moreno e tatuado. Seus braços e peito eram cobertos por desenhos coloridos, até o pescoço. Nos lóbulos ele trazia grandes alargadores.
_Gosto. Minha irmãzinha coleciona DVD’s com os episódios. Eu assisto junto com ela e me mijo de rir.
_É genial. Tó. Escolhe um adesivo.
_Qualquer um?
_Qualquer um. Não! Pega esse aqui, dos corações. É mais a sua cara. Todo fofinho.
Peguei o adesivo e colei na caixa de óculos. Continuar lendo