O Corpo

O último livro estava lá, levemente empoeirado, como sempre. Não era sorte. Aqueles corredores da biblioteca eram pouco frequentados. Depositou a bolsa no chão e subiu os degraus da escadinha móvel para alcançá-lo, enquanto segurava a coxinha entre os dentes.

Quase perdeu o equilíbrio enquanto descia. Apoiou-se na estante e ouviu, com amargura, a madeira estalar sob seu peso.

Pôs a bolsa no ombro, ao mesmo tempo que o livro caiu de sua mão. Curvou-se para pegá-lo e a alça da bolsa pendeu de seu ombro. O breve instante de dúvida, se pegava o livro ou segurava a bolsa, a desestabilizou e tudo foi ao chão. Até a coxinha.

Praguejando, abaixou-se com dificuldade, pegou a bolsa, o livro e a coxinha. Embrulhou a última no guardanapo, recolhendo os pequenos restos de frango que se espalharam, endireitou o corpo com um suspiro e retomou o caminho de volta. Continuar lendo