Lar

Neusa tem olhos verdes.

Cida prefere vermelho.

João adora cães. Cuida de oito.

Marluci odeia o frio.

Antônio é poeta.

José não sabe ler.

Janilson perdeu o pai quando ainda era adolescente.

Roberval era pedreiro.

Maria tem pesadelos todas as noites.

Clécio é esquizofrênico.

Janice já foi violentada.

Gilmar também.

Hudson tem dor de dentes há anos.

Elba sente falta do sabor do sorvete de creme, que tomava na sorveteria perto da casa da avó.

Manoel nem se lembra de como é a sensação de um banho quente.

Miguel perdeu o saxofone e a dignidade.

Denílson vai morrer de cirrose.

Catarina nunca ficou sóbria.

Baltazar não tem uma perna.

Vandersson não ganhou muita esmola hoje.

Jeane gosta do pôr-do-sol.

Lucélia e Marinalva dividem o mesmo cobertor.

Para mim é o metrô Santana. Para eles é um abrigo para passar a noite em segurança.

A boneca quebrada

Descia a porta de aço, quando as três chegaram: a mãe, a garotinha e a boneca. A segunda chorava.
O homem dos cabelos completamente brancos suspirou e ainda tentou se esquivar.
_Desculpe, já estou fechando. Abro amanhã às nove.
A mãe encarou a filha com um misto de pesar e compreensão. A filha não se deu por vencida. Estendeu as mãozinhas, mostrando a boneca.
_Por favor… Ela foi mordida pelo meu cachorro. É a minha filhinha. Não posso deixá-la com esse corte na barriga.
O velho acocorou-se com um pouco de dificuldade e tomou a boneca nas mãos. O enchimento de espuma saía pelo corte que ia da barriga até o bracinho de borracha. O braço pendia, seguro apenas por algumas costuras resistentes.
_Ela pode repousar esta noite, com você. Traga-a amanhã e eu prometo que a conserto no mesmo dia, tudo bem? Continue lendo

Gentileza gera gentileza – ou “A arte de falar sobre clichês”

Sim, eu sei que é clichê. Mas eu preciso repetir mais uma vez que clichês só existem porque acharam a frase bonita, contudo você só compreende realmente um clichê após vivenciá-lo? Acho que não, né? Great.

Cansei de ouvir pessoas falarem da grosseria das pessoas.
Pode não ser maioria, mas eu encontro gente educada TODOS os dias. Sério!

Vou contar dois causos que aconteceram comigo, no ambiente menos propício para gentilezas around the world: o metrô de São Paulo. Continue lendo

Dos assentos reservados

Os assentos reservados são fontes de muita discórdia.

Eu particularmente, nunca me importei em ceder meu lugar reservado, ou não, para quem precisa sentar mais do que eu [Tá, mentira. Quando estou com sono eu me importo um pouquinho.]

Acontece que as pessoas que “precisam sentar mais do que eu” nem sempre trazem a necessidade escrita na testa. Por isso, eu sempre me ferro ao oferecer o lugar a uma suposta grávida, ou a alguém que eu julgo idoso e acabo sendo fulminada por olhares indignados. Continue lendo

Tampando o sol com a peneira

2009 ou 1909Depois de um ano pesquisando tudo sobre determinado assunto e trabalhando em cima de um mesmo tema, é inevitável acabar se envolvendo.

A primeira grande prova disso foi no ano passado, quando o meu projeto era planejar uma campanha para uma ONG e posso afirmar que foi o trabalho mais denso e emocionalmente extenuante no qual já investi meu tempo.

Este ano a proposta era algo mais leve: uma campanha real para um cliente real e nossa agência experimental acabou por optar por determinada marca de preservativos como cliente. A ideia era trabalhar o conceito “todo mundo pensa em sexo”. Todo mundo MESMO. Continue lendo