Morto

A morte é assim, amigos.lápide

Uma hora você está lá, vivão, tomando um café e conversando com seu sócio e na outra esta indo para a luz.

E para os curiosos, a morte é todos esses clichês que falam por aí, viu? O medo, o frio, as vozes se distanciando, a paz e a caganeira final. Em seguida sua vida passa diante dos seus olhos como se fosse um filme e surgem os entes queridos que já se foram, te conduzindo com amor, para quem é de amor e com um “se fodeu, otário”, para quem havia morrido sem receber aqueles 50 contos que você pegou emprestado.

Eu não tenho muita certeza do exato momento em que parti, nem qual foi o motivo. Me lembro do café, do meu sócio e de acordar no hospital cheio de tubos na boca. Ouvi os médicos sussurrando coisas bem pouco encorajadoras sobre o meu estado e aí veio: medo, frio, paz, caganeira, filme, amor e “se fodeu, otário.” Continue lendo

Botando o filho no mundo

_Oi! Muito prazer! Antes de começarmos, gostaria que

soubesse que sou um grande admirador do seu trabalho e li todos os seus livros. Tenho particular preferência pelo segundo.

_Olha só! Que bom. Fico feliz.

_Bom, a partir de agora nossa conversa será gravada para facilitar minha redação mais tarde.

_Sem problemas.

_ Começando pela novidade: como foi lançar esse livro, o quarto de sua carreira?

_Ah, cada livro, cada texto escito, é como se fosse o primeiro. Parecem filhos: a gente faz e solta pro mundo. Não podemos querer controlá-los.

_Que interessante sua percepção… Eu também escrevo umas coisas, sabe?

_Imaginei. Jornalista, né… Continue lendo

Como tocar em meus livros e sair com todos os dedos

Não sou uma pessoa difícil de conviver. 

Sou minimamente organizada, daquelas que não saem do quarto sem arrumar a cama, mas sem ficar alinhando simetricamente os talheres na mesa. Estou de bom humor na maior parte do tempo que não estou de TPM. Limpo minha própria sujeira, sou cheirosa e não deixo minhas roupas largadas. Por outro lado, procuro não invadir o espaço alheio, faço o possível para respeitar diferenças de hábitos e comportamentos e sou sociável.

A única regra que imponho para convivência mútua é: não toque nos meus livros sem minha supervisão.

Livro para mim é sagrado, seja ele a bíblia ou não. Continue lendo

O pijama

Logo cedo, expediente recém-iniciado, alguns funcionários ainda chegando e tudo o que se ouvia pelo escritório era o som das teclas sendo digitadas freneticamente.

A moça da cozinha passou com a garrafá de café, trazendo aquele cheiro maravilhoso e inebriante para o ambiente. Continue lendo

O próximo ponto

Sei lá, ela só estava ali sentada no banco do ônibus, do lado da janela, sem grandes expectativas a respeito daquele fim de tarde. Nada demais. Coisa básica, normal.

Só que, entre uma curva e um farol fechado, quatro caras deram sinal para o ônibus e assim que ele deu partida anunciaram o assalto.

Enquanto um deles segurava uma arma nas costas do motorista, com instruções claras sobre agir normalmente e não parar o ônibus antes do próximo ponto, o segundo pulou a catraca para tirar tudo o que houvesse de valor dos passageiros e o terceiro fazia “a limpa” na caixa do cobrador.

Assim como os demais usuários de transporte público ali presentes, ela entregou a carteira, celular e relógio sem levantar o rosto e já estava achando que tudo ia ficar bem quando o bandido pediu sua aliança de noivado. Aí não aguentou mais, começou a chorar e entregou a aliança.

Encolheu-se na sua janela, soluçante e lacrimosa, querendo que tudo passasse bem rápido, quando o quarto rapaz, que estava na parte da frente do ônibus, percorreu o veículo, como se estivesse inspecionando o serviço dos comparsas.

Pelo jeito ele era o chefe de todos e, ela encolheu-se ainda mais, parou exatamente ao lado dela. Sentindo a boca do estômago se contrair, ela não conseguia forças para erguer os olhos, quando tomou o maior susto da sua vida: Continue lendo

Na estação

Era um dia normal na estação de trem.

Fora de horário de pico, sem grandes atropelos e correrias. Apenas os passageiros de ocasião, agindo como se não pertencesse àquela realidade, ou expressando toda a sua rebeldia contra o sistema pisando na faixa amarela.

Um mendigo desce a escada degrau a degrau, até chegar na plataforma, onde deposita sua enorme bolsa e fica aguardando o trem como os demais, porém comportadamente apoiado em sua bengala.

Um homem de mochila, uma mãe com seu bebê e um casal adolescente chegaram antes do trem despontar ao fim da linha.

Todos se aglomeram gradativamente na direção de parada das portas, enquanto o veículo estacionava devagar.

O mendigo aguardou que todos entrassem e segurou a porta, para que a mãe com o bebê entrasse, sorrindo divertido para a criança. Só entrou quando o sinal de fechamento das portas soou. Continue lendo

A esperta

Embora filha única até os dez anos, sempre quis ser motivo de orgulho para os meus pais.Descartando qualquer possibilidade de ser a filha mais bonita, ou a atleta, cheguei à conclusão de que teria de ser a mais inteligente. O que não quer dizer, necessariamente, a mais esperta.

Explico.

No alto dos meus sete, oito anos de idade, estava eu singelamente brincando em meu cantinho da bagunça, estrategicamente posicionado pela minha mãe do lado de fora da casa, mais especificamente ao lado da lavanderia.

Acredito que, naquele dia em específico, estivesse brincando de escolinha. Eu era a professora, óbvio, já que meus alunos eram minhas bonecas e meus ursinhos de pelúcia. Continue lendo

Marcas de Guerra

Queridos, a vida nada mais é do que o conjunto de histórias que você contará aos seus netos.Muitos contarão orgulhosos sobre o dia em que, dirigindo escondido a Harley-Davidson do pai aos doze anos, foram fugir da polícia e,em uma derrapagem brusca, acabaram ganhando aquela cicatriz na panturrilha. Estas marcas de guerra servem para nos mostrar fortes, intrépidos e aventureiros aos nossos descendentes. E gostaremos de relembrar, com os olhos perdidos de nostalgia, as pequenas aventuras que nos deixaram literalmente marcados.Eu tenho uma cicatriz dessas. Não na panturrilha. Na coxa. E ela realmente veio do escapamento de uma moto, que eu posso facilmente transformar em Harley-Davidson para meus netos.

O caso é que eu, como a criança pacata e totalmente adversa a atividades físicas que fui, tenho dificuldades enormes em encontrar marcas para contar histórias e, quando as tenho, as histórias não são realmente empolgantes, me obrigando a recorrer às minhas habilidades literárias para torná-las mais interessantes. Continue lendo

Divã

Oi! Há quanto tempo não nos vemos, heim? Senta aqui, por favor. Puxa as almofadas pra lá, que aí dá até pra deitar.

Tá servido de suco? Tem água também. Eu não tenho café, não tomo. Vou ficar devendo.

Eu tô tentando escrever um pouco, pra ver se organizo as ideias do que tem acontecido ultimamente, mas tá foda. Minha cabeça tá meio zoada. Tive duas crises de enxaqueca só na última semana.

O que você tem feito? Tem aproveitado o dia, o sol, a família? Pois é… São coisas que a gente não costuma se dar conta, a não ser que não as tenha mais ao alcance. A gente só sente falta do dia depois que anoitece e do sol, quando tá aquela chuvinha sacana que gela até o pensamento. De família o buraco é mais embaixo Continue lendo

A razão

Desculpa interromper o seu feriado, mas é que a saudade não me dá um minuto de trégua.

Me acostumei a fazer parte dos seus dias e agora não é mais a mesma coisa dormir, sem a certeza de que no meio da noite você vai me puxar pra perto de si e aninhar entre seus braços.

É que eu quero te contar sobre cada vez que o tempo muda por aqui. Porque tá frio e você prefere o frio, não é? E quando chove eu lembro de você dizendo, irônico, que estava odiando ter que passar o dia na cama comigo.

Tentei ouvir umas músicas pra passar o tempo, mas minha playlist está toda impregnada de momentos nossos. E os momentos ociosos, eu queria passar vendo algum filme que você baixou ou aquela série engraçadinha que passa toda hora na sua nova tv gigante, sabendo que só tenho que ir até ali na sala pra te ver. Até mesmo o cheiro da minha própria pele me trai, porque falta o cheiro do seu suor misturado nele. Continue lendo