Carta ao Gari da Estação:

gari20 de outubro de 2010:

Olá, senhor lixeir gari da estação!

Já faz alguns anos que eu desço todos os dias sempre no mesmo ponto, no mesmo horário. É a hora que estou indo para a escola. O tempo varia: às vezes está um puta sol já bem quente, em plena manhã. No outono o sol é gelado, nesse horário. Já no inverno é MUITO frio. E tem dias que está chovendo bastante, pouco ou garoando.

Não importa o tempo, o senhor está lá, varrendo o lixo que nós jogamos. Me incluí nisso, porque eu mesma já joguei lixo no chão várias vezes. Agora não mais.

Porque passando todos os dias no mesmo lugar, no mesmo horário e vendo-o realizar o seu trabalho que não deveria ser tão árduo, se fôssemos um pouco menos porcalhões mais educados, me fez repensar se eu não estava sendo um tantinho egoísta. Continuar lendo

Passageiros

1249_1Essa é a história de um atendente de guichê de ônibus. Pode parecer um personagem desinteressante, aquele carinha por quem você passa e só diz para onde vai, estende o dinheiro, pega a passagem, o troco e vai embora, sem nem precisar cumprimentar, ou agradecer pelo serviço prestado.

Mas acontece que a vida é engraçada e quando ele deu por si, estava atendente de guichê de ônibus. O salário era o suficiente para ajudar em casa e até para se casar com a namorada, quando ela também começasse a trabalhar. Os companheiros de trabalho não eram tão animados e satisfeitos em atender pessoas apressadas e vender passagens, mas ele não ligava, porque encontrou no seu trabalho uma oportunidade de realizar o seu sonho.

Explico. Continuar lendo

O cheiro

O perfume não era ruim. Era agradável. Mas havia algo nele que a confundia.

Não era um bom momento para ficar confusa. Podia ouvir a multidão gritando seu nome, em algum lugar por trás daquela cortina de luzes. Só conseguia enxergar até o fim do palco. Além dos holofotes, tudo era um vazio cheio de vozes.

Em cima do palco os fogos de artifício explodiam, para a entrada triunfal, e a fumaça cobria os seus pés, fazendo parecer que pisava em nuvens. Foi bem essa a sensação que teve, quando entrou: como se estivesse flutuando, alheia. Bem longe dali. Continuar lendo

Saudade

Ele guardava as compras no porta-malas, no estacionamento do supermercado, quando sentiu que lhe tocavam o ombro.

Virou-se para ver quem era e deu com uma senhora bastante idosa, roupas limpas e cabelos brancos um pouco bagunçados pelo vento. Ela ainda pousava a mão, leve como uma pena, em seu ombro e sorria embevecida, enquanto o encarava.

_Oi! A senhora precisa de ajuda? Continuar lendo

Lar

Neusa tem olhos verdes.

Cida prefere vermelho.

João adora cães. Cuida de oito.

Marluci odeia o frio.

Antônio é poeta. Continuar lendo

Rotina

Na mão direita eu segurava o celular, com a esquerda fuçava a bolsa atrás do cartão de passes do ônibus municipal. Sorte que sou mulher e consigo fazer mais de uma coisa ao mesmo tempo.

Meu estagiário finalmente atendeu e eu derrubei várias moedas no chão.

_Eu esqueci de enviar o texto para o cliente. Você pode fazer isso pra mim, antes de ir para a faculdade? Por favor! Prometo que amanhã eu pago o seu café cheio de firula. Continuar lendo

Um conto extraordinário

Ela não teve uma vida extraordinária.

Cresceu em um bairro sossegado, de uma cidade do interior, brincando com os meninos da rua, porque na rua não tinha tantas meninas assim e as que tinha, preferiam brincar de passa anel do que de polícia e ladrão.

Os meninos riam de suas sardas e da boca grande, mas ela botou apelidos em todos eles, então estavam quites.

Todos estudaram na mesma escola, durante a infância, mas se separaram no colegial. Os meninos foram estudar no centro da cidade e ela foi transferida, junto com as meninas, para o colégio do bairro, então tentou se aproximar delas. Mas elas preferiam se maquiar, enquanto ela ouvia Ramones. Deixou pra lá. Continuar lendo

A senhora do brinco de pérola

No dia do meu aniversário, acompanhei meus avós ao médico.O hospital era na capital, e eles ficam inseguros de desbravar o metrô paulista, com sua infinidade de linhas e estações novas.Eu não sabia muito bem como chegar lá, mas tecnologia é pra essas coisas mesmo e com o Google Maps, mais o GPS chegamos sãos e salvos ao destino.Enfrentamos a área metropolitana, com suas pessoas apressadas, multidões que se movem como cardumes e filas. Muitas filas. Olhando esse mar de rostos, entendemos de onde surgem os clichês e o porquê de esquecermos que cada pessoa que nos cruza o caminho é um universo.Passamos pelo mundo como se todos que nos cercam fossem apenas mais um. Porém são nossas experiências que nos fazem únicos, e principalmente, é justamente essa individualidade que nos faz iguais.

Enquanto esperava meu avô ser atendido, duas senhoras – ambas entre setenta e cinco e oitenta anos – se sentaram ao meu lado e a mais delicada, de cabelo louro e brinco de pérola, falou-me sobre a insônia que enfrentara aquela madrugada.

_Acordei uma da manhã e não dormi mais. Então levantei, faxinei a sala e passei toda a roupa, até ela acordar – e apontou para a irmã ao seu lado.

A outra acrescentou que viviam juntas desde sempre e a irmã era muito mais organizada que ela, com mania de limpeza. Continuar lendo

A esperta

Embora filha única até os dez anos, sempre quis ser motivo de orgulho para os meus pais.Descartando qualquer possibilidade de ser a filha mais bonita, ou a atleta, cheguei à conclusão de que teria de ser a mais inteligente. O que não quer dizer, necessariamente, a mais esperta.

Explico.

No alto dos meus sete, oito anos de idade, estava eu singelamente brincando em meu cantinho da bagunça, estrategicamente posicionado pela minha mãe do lado de fora da casa, mais especificamente ao lado da lavanderia.

Acredito que, naquele dia em específico, estivesse brincando de escolinha. Eu era a professora, óbvio, já que meus alunos eram minhas bonecas e meus ursinhos de pelúcia. Continuar lendo

A ceia

Ao conferir a despensa, enumerando os ingredientes e mantimentos que seriam necessários para a ceia de natal, notou a falta de dois itens essenciais: nozes e creme de leite. Resolveu fazer uma revista pela fruteira e armário dos doces, reabastecendo o estoque para a família que viria no final de semana.Estava muito calor, lá fora. Então se vestiu com a regata e a calça mais confortáveis que encontrou, prendeu o cabelo em um coque na nuca e conferiu se os óculos escuros estavam na bolsa. Notou que as chaves do carro sumiram, então correu todos os cômodos até encontrá-las no banheiro, rindo sozinha sem conseguir se lembrar de como foram parar lá.

Pegou as chaves, a bolsa, o celular e a carteira. Entrou no carro e dirigiu para o supermercado mais próximo. Continuar lendo