Infinita

tedioEla estava ali, deitada na cama e imóvel, já havia algumas horas.

Encarava o teto, pensando em um milhão de coisas ao mesmo tempo sem se focar em nenhum pensamento em específico. Isso dava a contraditória sensação de que não estava pensando em nada.

Na verdade estava sufocada. Estava sufocada com aquele monte de nada embolado na sua garganta. Pedindo para sair em um grito ou em um jato de vômito, tanto faz.

Viu as luzes andarem pelas paredes do quarto e madeiras do forro, junto com o sol. Era um domingo.

Poderia dizer que estava entediada. Mas só se o tédio pudesse ser definido como um estado constante de espírito e não um momento qualquer. Por isso o nada na garganta. Continuar lendo

Morto

A morte é assim, amigos.lápide

Uma hora você está lá, vivão, tomando um café e conversando com seu sócio e na outra esta indo para a luz.

E para os curiosos, a morte é todos esses clichês que falam por aí, viu? O medo, o frio, as vozes se distanciando, a paz e a caganeira final. Em seguida sua vida passa diante dos seus olhos como se fosse um filme e surgem os entes queridos que já se foram, te conduzindo com amor, para quem é de amor e com um “se fodeu, otário”, para quem havia morrido sem receber aqueles 50 contos que você pegou emprestado.

Eu não tenho muita certeza do exato momento em que parti, nem qual foi o motivo. Me lembro do café, do meu sócio e de acordar no hospital cheio de tubos na boca. Ouvi os médicos sussurrando coisas bem pouco encorajadoras sobre o meu estado e aí veio: medo, frio, paz, caganeira, filme, amor e “se fodeu, otário.” Continuar lendo

Lar

Neusa tem olhos verdes.

Cida prefere vermelho.

João adora cães. Cuida de oito.

Marluci odeia o frio.

Antônio é poeta. Continuar lendo

Tempo

Chegou em casa carregando todo o peso do dia nas costas.

Foi deixando as peças de roupa pelo caminho ao chuveiro. Quis prolongar o banho, mas se lembrou que fazia dias que não dormia horas suficientes. Então desligou a contragosto e ficou olhando o vapor sair pelo vitrô.

Enxugou-se, desembaçou o espelho com a toalha e ficou encarando a própria palidez com olheiras profundas. Tinha mesmo um ar cansado. Era melhor comer algo rápido e ir dormir logo, pois o dia seguinte seria cheio.

Foi para a cozinha sem se vestir. Praguejou por ter esquecido de colocar o congelado no microondas durante o banho, para economizar tempo. Cinco minutos faziam muita diferença.

Acompanhava impaciente os segundos regressivos do visor e, embalado pelo som do aparelho, fez a retrospectiva da sua vida até ali. Não chegara nem perto de onde queria estar, com aquela idade. Era do tipo que via cada dia como um dia a menos de vida. Apenas via a morte se aproximando, sem ter evoluído.

O microondas apitou. Continuar lendo

O Corpo – Final

Este post é o final do conto O Corpo. Leia as partes UM, DOIS, TRÊS e QUATRO antes de prosseguir.

Ainda ficou algum tempo apertando a garganta do cadáver, até ter certeza de que não havia mais nenhum batimento cardíaco. Soltou-a gradativamente sentindo o sangue voltar aos seus dedos, cujas juntas estiveram brancas pela força. Pousou a mão na própria garganta arfante, apavorada pelo que tinha acabado de fazer. Limpou em um gesto de raiva as lágrimas do rosto e recuou se arrastando pelo chão, até o outro canto do quarto.

De lá ficou olhando as pernas imóveis da morta e tentando assimilar o que aconteceria agora. Sentiu náuseas e correu ao banheiro, onde vomitou tudo o que comeu durante a tarde. Finalmente a respiração foi normalizando, junto ao raciocínio. Primeiro precisava ficar atenta aos sons de fora e verificar se alguém havia ouvido alguma coisa. Permaneceu em silêncio e estática por um bom tempo. Não houve nenhuma movimentação que indicasse suspeitas. Continuar lendo

O Corpo – Parte 4

Este post é continuação do conto O Corpo. Leia as partes UM, DOIS e TRÊS, antes de prosseguir.

No dia em que matou a colega de quarto, ela acordou cedo e foi caminhar pelo campus.
Era o dia perfeito para acontecer, pois era sexta-feira.

Às sextas-feiras, a garota entrava correndo logo depois da academia, jogava algumas roupas dentro da mala, tomava um banho e corria à rodoviária, para não perder o último ônibus para a cidade vizinha, onde morava o namorado. Então não a procurariam por pelo menos dois dias, até o domingo à noite, que era quando ela normalmente retornava.

Neste dia ela teria somente duas aulas de manhã, já que o professor da aula à tarde estava de licença. Então teria tempo de sobra para preparar o quarto para o ritual, antes que a companheira chegasse em seu afobamento. Continuar lendo

O Corpo – Parte 3

Este post é continuação do conto O Corpo. Leia primeiro as partes UM e DOIS, antes de prosseguir.

Não o encontrou em nenhum livro de História, nem mesmo nos de História das Religiões. Estava quase desistindo, quando pensou que procurava nos registros errados. Com breve pesquisa online, encontrou menções do nome em determinados rituais místicos, para alcançar sucesso em projetos. Lembrou-se do local do encontro, que se assemelhava muito à uma ruína medieval, então buscou por bruxaria e Lupercais. Prosseguiu procurando, até ter uma ideia: em vez da grafia, por que não o fonema? Continuar lendo

O Corpo – Parte 2

Este post é continuação do conto O Corpo. Leia a primeira parte antes de prosseguir.

Subia ofegante, os degraus do prédio.

Aquele lugar tinha sido sua casa nos últimos anos e refúgio da paixão que foi moldada com o tempo: o oculto.

Durante as aulas aprendeu sobre cultos antigos, deuses misteriosos e sociedades secretas. O assunto cada vez mais despertava seu interesse, até que começou a procurar livros que tratassem de qualquer coisa relacionada a magia e rituais pagãos, participava de palestras e debates sobre ocultismo.

A companheira de quarto não compreendia sua obsessão, que a levava a ter símbolos místicos pintados na parede, pôsteres com encantamentos, imagens relacionadas a diversos rituais de crenças pagãs.

Ela se incomodava, mas não culpava a garota. Ela era atlética, do perfeito estereótipo da bela cheerleader que fazia sucesso pela ala masculina. O pouco tempo que restava das suas horas dedicadas à própria beleza, ela lutava para manter a bolsa da faculdade de fisioterapia. Então sobrava quase nada para entender o que se passava na metade do quarto que não ocupava. Continuar lendo

O Corpo

O último livro estava lá, levemente empoeirado, como sempre. Não era sorte. Aqueles corredores da biblioteca eram pouco frequentados. Depositou a bolsa no chão e subiu os degraus da escadinha móvel para alcançá-lo, enquanto segurava a coxinha entre os dentes.

Quase perdeu o equilíbrio enquanto descia. Apoiou-se na estante e ouviu, com amargura, a madeira estalar sob seu peso.

Pôs a bolsa no ombro, ao mesmo tempo que o livro caiu de sua mão. Curvou-se para pegá-lo e a alça da bolsa pendeu de seu ombro. O breve instante de dúvida, se pegava o livro ou segurava a bolsa, a desestabilizou e tudo foi ao chão. Até a coxinha.

Praguejando, abaixou-se com dificuldade, pegou a bolsa, o livro e a coxinha. Embrulhou a última no guardanapo, recolhendo os pequenos restos de frango que se espalharam, endireitou o corpo com um suspiro e retomou o caminho de volta. Continuar lendo