Lar

Neusa tem olhos verdes.

Cida prefere vermelho.

João adora cães. Cuida de oito.

Marluci odeia o frio.

Antônio é poeta.

José não sabe ler.

Janilson perdeu o pai quando ainda era adolescente.

Roberval era pedreiro.

Maria tem pesadelos todas as noites.

Clécio é esquizofrênico.

Janice já foi violentada.

Gilmar também.

Hudson tem dor de dentes há anos.

Elba sente falta do sabor do sorvete de creme, que tomava na sorveteria perto da casa da avó.

Manoel nem se lembra de como é a sensação de um banho quente.

Miguel perdeu o saxofone e a dignidade.

Denílson vai morrer de cirrose.

Catarina nunca ficou sóbria.

Baltazar não tem uma perna.

Vandersson não ganhou muita esmola hoje.

Jeane gosta do pôr-do-sol.

Lucélia e Marinalva dividem o mesmo cobertor.

Para mim é o metrô Santana. Para eles é um abrigo para passar a noite em segurança.

Tempo

Chegou em casa carregando todo o peso do dia nas costas.

Foi deixando as peças de roupa pelo caminho ao chuveiro. Quis prolongar o banho, mas se lembrou que fazia dias que não dormia horas suficientes. Então desligou a contragosto e ficou olhando o vapor sair pelo vitrô.

Enxugou-se, desembaçou o espelho com a toalha e ficou encarando a própria palidez com olheiras profundas. Tinha mesmo um ar cansado. Era melhor comer algo rápido e ir dormir logo, pois o dia seguinte seria cheio.

Foi para a cozinha sem se vestir. Praguejou por ter esquecido de colocar o congelado no microondas durante o banho, para economizar tempo. Cinco minutos faziam muita diferença.

Acompanhava impaciente os segundos regressivos do visor e, embalado pelo som do aparelho, fez a retrospectiva da sua vida até ali. Não chegara nem perto de onde queria estar, com aquela idade. Era do tipo que via cada dia como um dia a menos de vida. Apenas via a morte se aproximando, sem ter evoluído.

O microondas apitou. Continue lendo

O Corpo – Final

Este post é o final do conto O Corpo. Leia as partes UM, DOIS, TRÊS e QUATRO antes de prosseguir.

Ainda ficou algum tempo apertando a garganta do cadáver, até ter certeza de que não havia mais nenhum batimento cardíaco. Soltou-a gradativamente sentindo o sangue voltar aos seus dedos, cujas juntas estiveram brancas pela força. Pousou a mão na própria garganta arfante, apavorada pelo que tinha acabado de fazer. Limpou em um gesto de raiva as lágrimas do rosto e recuou se arrastando pelo chão, até o outro canto do quarto.

De lá ficou olhando as pernas imóveis da morta e tentando assimilar o que aconteceria agora. Sentiu náuseas e correu ao banheiro, onde vomitou tudo o que comeu durante a tarde. Finalmente a respiração foi normalizando, junto ao raciocínio. Primeiro precisava ficar atenta aos sons de fora e verificar se alguém havia ouvido alguma coisa. Permaneceu em silêncio e estática por um bom tempo. Não houve nenhuma movimentação que indicasse suspeitas. Continue lendo

O Corpo – Parte 4

Este post é continuação do conto O Corpo. Leia as partes UM, DOIS e TRÊS, antes de prosseguir.

No dia em que matou a colega de quarto, ela acordou cedo e foi caminhar pelo campus.
Era o dia perfeito para acontecer, pois era sexta-feira.

Às sextas-feiras, a garota entrava correndo logo depois da academia, jogava algumas roupas dentro da mala, tomava um banho e corria à rodoviária, para não perder o último ônibus para a cidade vizinha, onde morava o namorado. Então não a procurariam por pelo menos dois dias, até o domingo à noite, que era quando ela normalmente retornava.

Neste dia ela teria somente duas aulas de manhã, já que o professor da aula à tarde estava de licença. Então teria tempo de sobra para preparar o quarto para o ritual, antes que a companheira chegasse em seu afobamento. Continue lendo

O Corpo – Parte 3

Este post é continuação do conto O Corpo. Leia primeiro as partes UM e DOIS, antes de prosseguir.

Não o encontrou em nenhum livro de História, nem mesmo nos de História das Religiões. Estava quase desistindo, quando pensou que procurava nos registros errados. Com breve pesquisa online, encontrou menções do nome em determinados rituais místicos, para alcançar sucesso em projetos. Lembrou-se do local do encontro, que se assemelhava muito à uma ruína medieval, então buscou por bruxaria e Lupercais. Prosseguiu procurando, até ter uma ideia: em vez da grafia, por que não o fonema? Continue lendo

O Corpo – Parte 2

Este post é continuação do conto O Corpo. Leia a primeira parte antes de prosseguir.

Subia ofegante, os degraus do prédio.

Aquele lugar tinha sido sua casa nos últimos anos e refúgio da paixão que foi moldada com o tempo: o oculto.

Durante as aulas aprendeu sobre cultos antigos, deuses misteriosos e sociedades secretas. O assunto cada vez mais despertava seu interesse, até que começou a procurar livros que tratassem de qualquer coisa relacionada a magia e rituais pagãos, participava de palestras e debates sobre ocultismo.

A companheira de quarto não compreendia sua obsessão, que a levava a ter símbolos místicos pintados na parede, pôsteres com encantamentos, imagens relacionadas a diversos rituais de crenças pagãs.

Ela se incomodava, mas não culpava a garota. Ela era atlética, do perfeito estereótipo da bela cheerleader que fazia sucesso pela ala masculina. O pouco tempo que restava das suas horas dedicadas à própria beleza, ela lutava para manter a bolsa da faculdade de fisioterapia. Então sobrava quase nada para entender o que se passava na metade do quarto que não ocupava. Continue lendo

O Corpo

O último livro estava lá, levemente empoeirado, como sempre. Não era sorte. Aqueles corredores da biblioteca eram pouco frequentados. Depositou a bolsa no chão e subiu os degraus da escadinha móvel para alcançá-lo, enquanto segurava a coxinha entre os dentes.

Quase perdeu o equilíbrio enquanto descia. Apoiou-se na estante e ouviu, com amargura, a madeira estalar sob seu peso.

Pôs a bolsa no ombro, ao mesmo tempo que o livro caiu de sua mão. Curvou-se para pegá-lo e a alça da bolsa pendeu de seu ombro. O breve instante de dúvida, se pegava o livro ou segurava a bolsa, a desestabilizou e tudo foi ao chão. Até a coxinha.

Praguejando, abaixou-se com dificuldade, pegou a bolsa, o livro e a coxinha. Embrulhou a última no guardanapo, recolhendo os pequenos restos de frango que se espalharam, endireitou o corpo com um suspiro e retomou o caminho de volta. Continue lendo

Memórias de 2010

Então encerramos mais um ciclo.
E acredito que a partir do momento em que o ser humano teve consciência da sua consciência, conscientemente ou não, acaba parando para repensar todos os seus atos, conquistas, tentativas e erros. Da mesma forma que, assim que começou a marcar o tempo de sua existência, deixou esse exercício mental para o encerramento dos ciclos.
Voltas e mais voltas para introduzir o que chamamos de retrospectiva.
Estes ciclos que eu estou encerrando [plural pois, além do final do ano geral, em breve eu também completarei outro ano da minha existência] foram de acontecimentos ímpares. Foi o ano em que me formei. O ano em que tentei diversas vezes e diversas coisas. E não conquistei nenhuma delas. Mas foi o ano em que mais descobri coisas e que aquela pessoa que existia dentro de mim, sufocada por pequenos e grandes medos, cresceu, apareceu, tomou forma e se impôs como quem eu realmente sou. Continue lendo

A caixa de óculos

_Você precisa trocar sua caixinha do óculos.
Sorri discretamente e alisei a embalagem de acrílico, já trincada e cheia de riscos. Na tampa, um adesivo do Bob Esponja meio gasto pelo atrito com os outros objetos que infestam a bolsa feminina.
_Troco os óculos, mas não troco a caixa.
A maioria não entende todo esse apego, mas a questão não é a caixa. É o adesivo. Há tanto tempo colado, que se despedaçaria à menor tentativa de descolá-lo.
Nele, o Bob Esponja saltita, com os braços carregados de corações e espalha-os pelo caminho em que passa.
No dia em que meu amigo me deu aquele adesivo, estávamos ambos sentados lado a lado na sala de aula, no primeiro semestre da faculdade e eu ria de seu caderno do Bob Esponja.
_E esse caderno de quinta série, heim?
_O Bob é o melhor, cara! Você também gosta dele?
Eu ria do rapaz moreno e tatuado. Seus braços e peito eram cobertos por desenhos coloridos, até o pescoço. Nos lóbulos ele trazia grandes alargadores.
_Gosto. Minha irmãzinha coleciona DVD’s com os episódios. Eu assisto junto com ela e me mijo de rir.
_É genial. Tó. Escolhe um adesivo.
_Qualquer um?
_Qualquer um. Não! Pega esse aqui, dos corações. É mais a sua cara. Todo fofinho.
Peguei o adesivo e colei na caixa de óculos. Continue lendo