Longas pernas

metroImaginem o cenário: metrô de São Paulo, 8h30 da manhã.

A cada três metrôs no sentido oposto, passa um no sentido no qual preciso pegar.

E os metrôs que passam (a cada três do sentido oposto) estão tão abarrotados que não dá tempo das pessoas de dentro saírem e as de fora entrarem.

Então a plataforma vai se enchendo cada vez mais.

No sexto metrô que para, abre e sai gente, vejo uma brecha com o exato espaço para caber a mim, meio de lado e com a perna esquerda levantada, mais a minha mochila. Contraio a barriga, desvio de um cotovelo e entro, esperando a porta fechar atrás de mim para poder soltar meu peso contra ela. Continuar lendo

Leia-me: Negras Raízes

43750_305Com algumas semanas de Leia-me vocês já devem ter notado que eu tenho alguns padrões para gostar de livros e que um desses padrões é que eles me ensinem sobre a cultura e/ou comportamento de uma sociedade de um determinado local e/ou época.

Sei lá, só sei que sou fascinada por saber como são ou eram os protocolos e pequenos rituais que as pessoas precisam ou precisavam seguir para conviver em uma determinada época ou lugar.

Por isso gosto tanto dos livros do José de Alencar e por isso gostei tanto do livro que sugiro hoje: Negras Raízes de Alex Haley. O autor conta a história da escravidão nos Estados Unidos a partir de sua própria genealogia, começando do seu trisavô, Kunta Kinte, que foi traficado aos EUA como escravo africano e terminando a história em si mesmo. Continuar lendo

Passageiros

1249_1Essa é a história de um atendente de guichê de ônibus. Pode parecer um personagem desinteressante, aquele carinha por quem você passa e só diz para onde vai, estende o dinheiro, pega a passagem, o troco e vai embora, sem nem precisar cumprimentar, ou agradecer pelo serviço prestado.

Mas acontece que a vida é engraçada e quando ele deu por si, estava atendente de guichê de ônibus. O salário era o suficiente para ajudar em casa e até para se casar com a namorada, quando ela também começasse a trabalhar. Os companheiros de trabalho não eram tão animados e satisfeitos em atender pessoas apressadas e vender passagens, mas ele não ligava, porque encontrou no seu trabalho uma oportunidade de realizar o seu sonho.

Explico. Continuar lendo

Carta ao homem da rua

Olhando assim, de fora, até que eu sou bem comum.

Não costumo chamar a atenção por motivo algum, seja pela forma como me visto ou como me comporto. Não sou o tipo de mulher que é a primeira a ser abordada pelos caras em uma festa. Na verdade estou mais para aquelas a quem eles recorrem depois de já terem levado um toco e estão nas fronteiras do estar bêbado.

Enfim. Duvido que alguém me olhe duas vezes.

Talvez isso tenha facilitado o desenvolvimento de uma mania meio boba, que eu tenho: escrever cartas que nunca serão enviadas. Continuar lendo

A esperta

Embora filha única até os dez anos, sempre quis ser motivo de orgulho para os meus pais.Descartando qualquer possibilidade de ser a filha mais bonita, ou a atleta, cheguei à conclusão de que teria de ser a mais inteligente. O que não quer dizer, necessariamente, a mais esperta.

Explico.

No alto dos meus sete, oito anos de idade, estava eu singelamente brincando em meu cantinho da bagunça, estrategicamente posicionado pela minha mãe do lado de fora da casa, mais especificamente ao lado da lavanderia.

Acredito que, naquele dia em específico, estivesse brincando de escolinha. Eu era a professora, óbvio, já que meus alunos eram minhas bonecas e meus ursinhos de pelúcia. Continuar lendo

A ceia

Ao conferir a despensa, enumerando os ingredientes e mantimentos que seriam necessários para a ceia de natal, notou a falta de dois itens essenciais: nozes e creme de leite. Resolveu fazer uma revista pela fruteira e armário dos doces, reabastecendo o estoque para a família que viria no final de semana.Estava muito calor, lá fora. Então se vestiu com a regata e a calça mais confortáveis que encontrou, prendeu o cabelo em um coque na nuca e conferiu se os óculos escuros estavam na bolsa. Notou que as chaves do carro sumiram, então correu todos os cômodos até encontrá-las no banheiro, rindo sozinha sem conseguir se lembrar de como foram parar lá.

Pegou as chaves, a bolsa, o celular e a carteira. Entrou no carro e dirigiu para o supermercado mais próximo. Continuar lendo

Aparência

Estávamos eu e a amiga, sentadas no banco em frente àquela livraria grande da Augusta (sempre ela, a livraria), conversando sobre assuntos aleatórios e irrelevantes, quando ele nos abordou.Cabelos por cortar e totalmente desgrenhados em torno da careca reluzente, vários dentes a menos, roupas surradas, sandálias gastas e muitas sacolas nas mãos. Não nos pediu dinheiro. Apontou um dedo na nossa cara e disparou: “Vocês viram o que aqueles desgraçados da câmara aprovaram hoje?”

Um pouco atordoadas pela aparição brusca, arriscamos as críticas seguras: “Pois é, aquilo ali é uma merda mesmo.” E ele prosseguiu despejando informações e opiniões que me deixaram envergonhada por não estar inteirada de um assunto tão grave. Continuar lendo

Memórias de 2010

Então encerramos mais um ciclo.
E acredito que a partir do momento em que o ser humano teve consciência da sua consciência, conscientemente ou não, acaba parando para repensar todos os seus atos, conquistas, tentativas e erros. Da mesma forma que, assim que começou a marcar o tempo de sua existência, deixou esse exercício mental para o encerramento dos ciclos.
Voltas e mais voltas para introduzir o que chamamos de retrospectiva.
Estes ciclos que eu estou encerrando [plural pois, além do final do ano geral, em breve eu também completarei outro ano da minha existência] foram de acontecimentos ímpares. Foi o ano em que me formei. O ano em que tentei diversas vezes e diversas coisas. E não conquistei nenhuma delas. Mas foi o ano em que mais descobri coisas e que aquela pessoa que existia dentro de mim, sufocada por pequenos e grandes medos, cresceu, apareceu, tomou forma e se impôs como quem eu realmente sou. Continuar lendo

Gentileza gera gentileza – ou “A arte de falar sobre clichês”

Sim, eu sei que é clichê. Mas eu preciso repetir mais uma vez que clichês só existem porque acharam a frase bonita, contudo você só compreende realmente um clichê após vivenciá-lo? Acho que não, né? Great.

Cansei de ouvir pessoas falarem da grosseria das pessoas.
Pode não ser maioria, mas eu encontro gente educada TODOS os dias. Sério!

Vou contar dois causos que aconteceram comigo, no ambiente menos propício para gentilezas around the world: o metrô de São Paulo. Continuar lendo

Dia das Crianças: O Festival da Primavera

Na hora de escolher a foto pro avatar de dia das crianças, comecei a rir sozinha ao lembrar de toda a história por trás da foto da flor laranja e ela acabou se escolhendo sozinha. “É esta!”
Quando as professoras da educação infantil do Colégio Palmarino Calabrez começaram a organizar o Festival da Primavera de 93, separaram, em seus conceitos retrógrados e nada democráticos, as meninas em três categorias bem claras: as com altura acima da média seriam borboletas. As meninas de altura mediana seriam flores. E as que costumavam ocupar as quatro primeiras posições pra fila do recreio seriam joaninhas.
Adivinha em qual categoria eu fiquei? Pois é.
Mãs, revolucionária e agitadora como sempre, eu reinvidiquei meus direitos de vestir a fantasia que me apetecesse, o que não teve nada a ver com o fato de todos os collans pretos size PPP da cidade terem desaparecido e minha mãe só ter encontrado um collan verde no meu tamanho. Fiquei sendo flor. Continuar lendo