Auto controle

to-do-listTudo começou quando ela percebeu que precisava esquematizar suas tarefas, ou tudo fugiria do seu controle. Se ela não fizesse tudo exatamente do mesmo jeito, todos os dias, certamente esqueceria de fazer algo. E se qualquer elemento novo entrasse no meio da sua rotina, era certeza de que todo o resto se desregularia. Para que isso não acontecesse, ela criou diversos sistemas e listas, que ela repetia diariamente.

Todos os dias ela acordava com o despertador e aproveitava os dez minutos de preguiça para conferir as redes sociais pelo celular. Depois se levantava, escolhia a roupa que usaria naquele dia e arrumava a cama. Em seguida ia ao banheiro escovar os dentes e fazer o xixizinho matinal, voltava ao quarto para se vestir, fazia a maquiagem, ajeitava a bolsa, alimentava os peixes e ia para a cozinha.

Nunca tomava café antes de fazer a marmita e sempre deixava as chaves e a carteira ao lado do celular sobre a mesinha de centro, pois já precisara voltar vezes o suficiente porque havia esquecido um dos três. Continuar lendo

Infinita

tedioEla estava ali, deitada na cama e imóvel, já havia algumas horas.

Encarava o teto, pensando em um milhão de coisas ao mesmo tempo sem se focar em nenhum pensamento em específico. Isso dava a contraditória sensação de que não estava pensando em nada.

Na verdade estava sufocada. Estava sufocada com aquele monte de nada embolado na sua garganta. Pedindo para sair em um grito ou em um jato de vômito, tanto faz.

Viu as luzes andarem pelas paredes do quarto e madeiras do forro, junto com o sol. Era um domingo.

Poderia dizer que estava entediada. Mas só se o tédio pudesse ser definido como um estado constante de espírito e não um momento qualquer. Por isso o nada na garganta. Continuar lendo

Carta ao Gari da Estação:

gari20 de outubro de 2010:

Olá, senhor lixeir gari da estação!

Já faz alguns anos que eu desço todos os dias sempre no mesmo ponto, no mesmo horário. É a hora que estou indo para a escola. O tempo varia: às vezes está um puta sol já bem quente, em plena manhã. No outono o sol é gelado, nesse horário. Já no inverno é MUITO frio. E tem dias que está chovendo bastante, pouco ou garoando.

Não importa o tempo, o senhor está lá, varrendo o lixo que nós jogamos. Me incluí nisso, porque eu mesma já joguei lixo no chão várias vezes. Agora não mais.

Porque passando todos os dias no mesmo lugar, no mesmo horário e vendo-o realizar o seu trabalho que não deveria ser tão árduo, se fôssemos um pouco menos porcalhões mais educados, me fez repensar se eu não estava sendo um tantinho egoísta. Continuar lendo

Passageiros

1249_1Essa é a história de um atendente de guichê de ônibus. Pode parecer um personagem desinteressante, aquele carinha por quem você passa e só diz para onde vai, estende o dinheiro, pega a passagem, o troco e vai embora, sem nem precisar cumprimentar, ou agradecer pelo serviço prestado.

Mas acontece que a vida é engraçada e quando ele deu por si, estava atendente de guichê de ônibus. O salário era o suficiente para ajudar em casa e até para se casar com a namorada, quando ela também começasse a trabalhar. Os companheiros de trabalho não eram tão animados e satisfeitos em atender pessoas apressadas e vender passagens, mas ele não ligava, porque encontrou no seu trabalho uma oportunidade de realizar o seu sonho.

Explico. Continuar lendo

Leia-me: O Vampiro de Curitiba

1016081-250x250A minha relação com esse livro sempre foi estranha, nos mais variados aspectos.

A primeira delas: eu nunca tinha ouvido falar de Dalton Trevisan, até fazer um teste por brincadeira, para saber qual livro tinha mais a ver comigo e o resultado deu justamente O Vampiro de Curitiba, o que eu achei bastante peculiar.

Alguns anos depois encontrei-o em uma livraria e resolvi levá-lo. Para minha surpresa era muito fino e foi lido em menos de uma tarde.

E “estranho” continua sendo a palavra para definí-lo. Dalton é cruel, violento e impiedoso. Mas não pensem vocês que se trata de um livro sobre monstros ou de violência sanguinolenta e física. Continuar lendo

O vendedor de pipocas

carrinho+de+pipoca+cod+05+suzano+sp+brasil__21400C_1Realmente a graça da vida parecia estar nas pequenas coisas. Foi o que ela pensou naquele dia em que saiu um pouco mais cedo do trabalho. A felicidade não estava no fato de ter saído mais cedo, ou de ter conseguido cumprir todas as tarefas que pretendia, no centro da cidade.

Mas sim por ter conseguido fazer algo que não fazia desde os tempos da faculdade: caminhar pela cidade à noite, comendo uma coxinha de boteco, daquelas meio murchas e já quase frias.

Não que a cidade fosse das mais bonitas, muito menos que ela gostasse de coxinha murcha e quase fria. Ela só queria matar a saudade e curtir um pouco aquela nostalgia toda, agora que estava em um bom momento da sua vida. Continuar lendo

A estranha

windowPela primeira vez em toda a sua vida, encarou a garota que estava à sua frente e ouviu o que tinha a dizer.

Agora que prestava a devida atenção, receava que aqueles fossem os olhos mais vazios que já vira.

Enquanto a garota falava e falava, ela se perguntava por que nunca havia parado para ouví-la. Questionava como era possível alguém ter tantas cicatrizes acumuladas e simplesmente cuidar delas sozinha e em silêncio por tanto tempo.

Queria dizer-lhe para correr atrás dos seus sonhos. Queria lhe dizer que nunca era tarde para recomeçar.

Queria que ela compreendesse que a causa daquele vazio não era culpa dela, mas cabia somente a ela as mudanças que fariam sua vida finalmente funcionar.

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O ponto

alone-calle-chica-choices-chuva-city-Favim.com-38973No meio do caminho para o ponto de ônibus a chuva começou a cair.

Tudo nessas horas é relativo. A metade do caminho pode ser muito longe se o caminho todo tem coisa de dois quilômetros e também pode ser bem perto, caso o ponto de ônibus fique a menos de cinquenta metros do ponto de partida. Ainda assim, a distância a ser percorrida é relativamente proporcional à intensidade da chuva, seja essa distância dois quilômetros ou dois metros.

No meu caso foram dez metros que bastaram para que eu me abrigasse já ensopada sob o telhado do ponto.

Sob ele também se escondia um rapaz, de boné e regata vermelhos. Ele trazia um carrinho daqueles de sacoleira, onde se encaixa na parte metálica bolsas, caixas e outras coisas ruins de carregar e se prende tudo com uma corda elástica, que tem dois ganchos, um em cada ponta. O carrinho trazia umas três caixas, já todas deformadas pela tensão do elástico e, provavelmente, por uma viagem longa. Continuar lendo

A futura borboleta

A vida tem maneiras curiosas de bater à nossa porta

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e nos lembrar da nossa pequenez diante da imensidão do mundo. No meu caso não foi bem na porta, mas sim na janela do meu quarto.

Tudo começou quando esqueci o carregador do celular na casa de uma amiga em São Paulo. Como o celular também é o meu despertador, criei o hábito de dormir com a janela aberta para que a luz do sol me acordasse naturalmente. O que aconteceu foi que, quando peguei o carregador de volta, o despertador voltou mas o hábito permaneceu.
E  então, quando chegou o final do ano, época de festas e de recessos na maioria das empresas e, com ele, a hora de fechar a janela para poder dormir até mais tarde, uma lagarta resolveu fazer o seu casulo exatamente no trilho da minha janela, tornando impossível fechá-la sem que fosse necessário arrancar o casulo de lá.

E em um dos primeiros dias de folga, enquanto tentava convencer meu cérebro de que era desnecessário estar mergulhada no breu para dormir, me ocorreu que essa classe de animais poderia ser mais esperta ao escolher um abrigo.

Fiquei pensando, com os meus botões, as encheções de saco que aquela lagarta deveria ter aguentado de amigos e parentes, ao ter escolhido minha janela para o seu sono de beleza.

“Nossa, você vai mesmo ficar aí? Belo futuro você vai ter: será esmagada por aquela janela.”

“Cara, ficou sabendo da Clotilde? Fez casulo na janela de uma humana. Certeza que vai morrer antes mesmo de poder dizer ‘metamorfose’”

“Ela sempre foi uma sonhadora, mesmo. Acreditava que os humanos sabem que lagartas se transformam em borboletas e por isso iriam poupá-la da morte, mesmo sendo uma larva nojenta.” Continuar lendo