Realidade

tumblr_m8bo6wD33t1qhhzigo1_500Havia sido um dia bastante intenso no trabalho.

Precisara convencer o atendimento e o planejamento de que aquela abordagem não era a mais indicada para aquele cliente, em uma reunião que se arrastou por horas. Pelo menos alcançou seu intento e decidiram adotar seu ponto de vista.

Chegou em casa cansada, mas com a sensação de dever cumprido. Embora fosse a quarta vez naquela semana que chegava muito tarde. Deixou o jantar esquentando no microondas enquanto tomava um banho rápido. O mais rápido possível para que pudesse cair logo na cama.

Foi só quando já estava de pijamas, prestes a se deitar, que se lembrou dos sonhos. Por um momento hesitou. Temia deitar e entrar novamente naquela sequência que parecia se continuar a cada noite dormida. Era um sonho muito real. Real demais para ser só sonho. Começava a temer o que poderia haver por trás dele, embora se sentisse uma idiota: sabia que o pior que poderia significar era o seu subconsciente estar lhe enviando uma mensagem que ela ainda não havia captado. Continuar lendo

Infinita

tedioEla estava ali, deitada na cama e imóvel, já havia algumas horas.

Encarava o teto, pensando em um milhão de coisas ao mesmo tempo sem se focar em nenhum pensamento em específico. Isso dava a contraditória sensação de que não estava pensando em nada.

Na verdade estava sufocada. Estava sufocada com aquele monte de nada embolado na sua garganta. Pedindo para sair em um grito ou em um jato de vômito, tanto faz.

Viu as luzes andarem pelas paredes do quarto e madeiras do forro, junto com o sol. Era um domingo.

Poderia dizer que estava entediada. Mas só se o tédio pudesse ser definido como um estado constante de espírito e não um momento qualquer. Por isso o nada na garganta. Continuar lendo

Carta ao Gari da Estação:

gari20 de outubro de 2010:

Olá, senhor lixeir gari da estação!

Já faz alguns anos que eu desço todos os dias sempre no mesmo ponto, no mesmo horário. É a hora que estou indo para a escola. O tempo varia: às vezes está um puta sol já bem quente, em plena manhã. No outono o sol é gelado, nesse horário. Já no inverno é MUITO frio. E tem dias que está chovendo bastante, pouco ou garoando.

Não importa o tempo, o senhor está lá, varrendo o lixo que nós jogamos. Me incluí nisso, porque eu mesma já joguei lixo no chão várias vezes. Agora não mais.

Porque passando todos os dias no mesmo lugar, no mesmo horário e vendo-o realizar o seu trabalho que não deveria ser tão árduo, se fôssemos um pouco menos porcalhões mais educados, me fez repensar se eu não estava sendo um tantinho egoísta. Continuar lendo

Areia

ampulheta2Observava, como em transe, os grãos diminutos e coloridos escoando pelo vão estreito do vidro. Estendida sobre um pufe disforme, deslizava preguiçosamente os dedos pela superfície lisa, enquanto o tempo passava.

Construíra aquela ampulheta com as próprias mãos, até mesmo o vidro. Foi quando visitou uma fábrica de vidro, na última viagem de férias, que teve a ideia. Perguntou ao artesão como funcionava e, enquanto ele explicava, em sua mente surgiu um esboço. Na mesma hora expôs sua ideia e o senhor, já idoso, não só disse que era possível, como deixou que ela mesma assoprasse e moldasse a mistura viscosa e amarelada, até que tomasse a forma que desejava. Depois, já de volta, comprou os pedaços de madeira e trabalhou por horas a fio na ampulheta, lixando, pintando, encaixando. Fez questão de desenhar nas colunas coisas que lembrassem cada lágrima que deixou cair em vão. Precisava registrá-las e lembrá-las. Escolheu areias douradas, pois achava poética a expressão “as areias douradas do tempo”. Bastante adequado. Continuar lendo

O vendedor de pipocas

carrinho+de+pipoca+cod+05+suzano+sp+brasil__21400C_1Realmente a graça da vida parecia estar nas pequenas coisas. Foi o que ela pensou naquele dia em que saiu um pouco mais cedo do trabalho. A felicidade não estava no fato de ter saído mais cedo, ou de ter conseguido cumprir todas as tarefas que pretendia, no centro da cidade.

Mas sim por ter conseguido fazer algo que não fazia desde os tempos da faculdade: caminhar pela cidade à noite, comendo uma coxinha de boteco, daquelas meio murchas e já quase frias.

Não que a cidade fosse das mais bonitas, muito menos que ela gostasse de coxinha murcha e quase fria. Ela só queria matar a saudade e curtir um pouco aquela nostalgia toda, agora que estava em um bom momento da sua vida. Continuar lendo

Morto

A morte é assim, amigos.lápide

Uma hora você está lá, vivão, tomando um café e conversando com seu sócio e na outra esta indo para a luz.

E para os curiosos, a morte é todos esses clichês que falam por aí, viu? O medo, o frio, as vozes se distanciando, a paz e a caganeira final. Em seguida sua vida passa diante dos seus olhos como se fosse um filme e surgem os entes queridos que já se foram, te conduzindo com amor, para quem é de amor e com um “se fodeu, otário”, para quem havia morrido sem receber aqueles 50 contos que você pegou emprestado.

Eu não tenho muita certeza do exato momento em que parti, nem qual foi o motivo. Me lembro do café, do meu sócio e de acordar no hospital cheio de tubos na boca. Ouvi os médicos sussurrando coisas bem pouco encorajadoras sobre o meu estado e aí veio: medo, frio, paz, caganeira, filme, amor e “se fodeu, otário.” Continuar lendo

Carta ao homem da rua

Olhando assim, de fora, até que eu sou bem comum.

Não costumo chamar a atenção por motivo algum, seja pela forma como me visto ou como me comporto. Não sou o tipo de mulher que é a primeira a ser abordada pelos caras em uma festa. Na verdade estou mais para aquelas a quem eles recorrem depois de já terem levado um toco e estão nas fronteiras do estar bêbado.

Enfim. Duvido que alguém me olhe duas vezes.

Talvez isso tenha facilitado o desenvolvimento de uma mania meio boba, que eu tenho: escrever cartas que nunca serão enviadas. Continuar lendo

Presente

Eram três da tarde, quando entrou na loja estranha.

A semanas passava quase diariamente por aquela porta estreita e espiava, curioso, pelo corredor escuro e coberto de relógios por todos os lados.

Tinha vontade de entrar lá, algum dia, para dar uma “olhadinha”, coisa que faria em qualquer loja. O engraçado é que o impulso sempre era reprimido pela consciência de que não precisava do que era vendido ali, embora o único relógio que possuía era o que aparecia na tela de descanso do celular. Inconscientemente sabia que aquele corredor vendia mais do que relógios. Continuar lendo

Saudade

Ele guardava as compras no porta-malas, no estacionamento do supermercado, quando sentiu que lhe tocavam o ombro.

Virou-se para ver quem era e deu com uma senhora bastante idosa, roupas limpas e cabelos brancos um pouco bagunçados pelo vento. Ela ainda pousava a mão, leve como uma pena, em seu ombro e sorria embevecida, enquanto o encarava.

_Oi! A senhora precisa de ajuda? Continuar lendo

Lar

Neusa tem olhos verdes.

Cida prefere vermelho.

João adora cães. Cuida de oito.

Marluci odeia o frio.

Antônio é poeta. Continuar lendo