Auto controle

to-do-listTudo começou quando ela percebeu que precisava esquematizar suas tarefas, ou tudo fugiria do seu controle. Se ela não fizesse tudo exatamente do mesmo jeito, todos os dias, certamente esqueceria de fazer algo. E se qualquer elemento novo entrasse no meio da sua rotina, era certeza de que todo o resto se desregularia. Para que isso não acontecesse, ela criou diversos sistemas e listas, que ela repetia diariamente.

Todos os dias ela acordava com o despertador e aproveitava os dez minutos de preguiça para conferir as redes sociais pelo celular. Depois se levantava, escolhia a roupa que usaria naquele dia e arrumava a cama. Em seguida ia ao banheiro escovar os dentes e fazer o xixizinho matinal, voltava ao quarto para se vestir, fazia a maquiagem, ajeitava a bolsa, alimentava os peixes e ia para a cozinha.

Nunca tomava café antes de fazer a marmita e sempre deixava as chaves e a carteira ao lado do celular sobre a mesinha de centro, pois já precisara voltar vezes o suficiente porque havia esquecido um dos três. Continuar lendo

Areia

ampulheta2Observava, como em transe, os grãos diminutos e coloridos escoando pelo vão estreito do vidro. Estendida sobre um pufe disforme, deslizava preguiçosamente os dedos pela superfície lisa, enquanto o tempo passava.

Construíra aquela ampulheta com as próprias mãos, até mesmo o vidro. Foi quando visitou uma fábrica de vidro, na última viagem de férias, que teve a ideia. Perguntou ao artesão como funcionava e, enquanto ele explicava, em sua mente surgiu um esboço. Na mesma hora expôs sua ideia e o senhor, já idoso, não só disse que era possível, como deixou que ela mesma assoprasse e moldasse a mistura viscosa e amarelada, até que tomasse a forma que desejava. Depois, já de volta, comprou os pedaços de madeira e trabalhou por horas a fio na ampulheta, lixando, pintando, encaixando. Fez questão de desenhar nas colunas coisas que lembrassem cada lágrima que deixou cair em vão. Precisava registrá-las e lembrá-las. Escolheu areias douradas, pois achava poética a expressão “as areias douradas do tempo”. Bastante adequado. Continuar lendo

Leia-me: Senhora

3772682492Quase tanto quanto a marquinha de vacina no braço, faz parte do protocolo de brasilidade ser obrigado a ler José de Alencar quando se está na escola. Muita gente cria verdadeira aversão pelo autor nessa época porque, convenhamos, o cara tinha uma inacreditável tara por detalhes, chegando a levar três páginas para descrever o vestido de uma dama em um baile.

Porém esta categoria de posts serve para sugerir livros que me agradaram e, embora eu seja do contra e ame José de Alencar, acredito que Senhora seja uma leitura mais do que necessária: surpreendente e prazerosa. (Acho que vocês já perceberam que tenho um fraco por histórias legais, então perdoem-me se não gostaram do livro).

Gosto de Senhora por vários motivos. O primeiro deles: como a maioria dos clássicos da literatura nacional, é o retrato de uma época (no caso, sociedade fluminense na época do segundo império). E não é um retrato político ou histórico. É mais íntimo. É um retrato do que acontecia dentro das casas, nas saletas das recepções oferecidas pelos membros da corte. Um retrato do comportamento das pessoas em um determinado contexto histórico. Pronto. Já me ganhou. Continuar lendo

Remendado

letitgoAcordou com uma tristeza que não era natural dela.

Ainda deitada, tentou se lembrar do que sonhou. Não lembrou. Mas pelo vazio inconveniente que sentia, o sonho era mesmo o causador da melancolia.

Resolveu que não adiantava ficar se lamentando, espreguiçou e levou o vazio para fora da cama, alongando os membros.

Enquanto escovava os dentes se lembrou do dia em que encontrou o ex-namorado pela última vez. Eles ainda não sabiam que aquela seria a última vez que se veriam mas, depois do amor, repentinamente ela sentiu vontade de chorar. Não havia motivos para isso e nunca havia acontecido antes. Para que ele não percebesse seus olhos cheios de lágrimas o abraçou, até que conseguisse se controlar. Agora sabia que esse acontecimento, aparentemente inexplicável, fora sua intuição avisando-a de que tudo iria terminar. Continuar lendo

Uma história engraçada

Hoje tenho uma história muito engraçada para contar para vocês, a respeito de uma amiga minha.

Nos conhecemos quando nós duas ainda estávamos na oitava série (ginásio, para os mais velhos), mas só fomos ficar amigas mesmo no primeiro ano do colégio (segundo grau, para os mais velhos). Continuar lendo

Intocável

Já nos bastidores, pendurou a câmera no pescoço, colocou as lentes nos bolsos do colete, ao lado das baterias e dos rolos de filme.

Em tempos de efemeridades e retoques digitais, ele era uma pessoa analógica. Gostava do raciocínio que os contrastes, luzes e cores perfeitos demandavam, sem recorrer aos artifícios de editores de imagem.

Aquele espetáculo seria o maior do ano e ele não poderia deixar passar um único momento sequer. Não bastasse o tamanho do evento, o dia trazia outra importância para si: marcava exatos 12 meses que conhecera, ali, naquele mesmo palco, a mulher pela qual era apaixonado. Continuar lendo

Saudade

Ele guardava as compras no porta-malas, no estacionamento do supermercado, quando sentiu que lhe tocavam o ombro.

Virou-se para ver quem era e deu com uma senhora bastante idosa, roupas limpas e cabelos brancos um pouco bagunçados pelo vento. Ela ainda pousava a mão, leve como uma pena, em seu ombro e sorria embevecida, enquanto o encarava.

_Oi! A senhora precisa de ajuda? Continuar lendo

Aos homens, e às mulheres, sobre os homens

Diariamente vejo mulheres e mais mulheres querendo ser tratadas como princesas e ditando regras aos homens – estes terríveis partidores de corações alheios – do modo como devem ser amadas.

“Queremos ser amadas com romantismo e não ter os sentimentos despedaçados”, dizem minhas colegas de gênero. Continuar lendo

O homem indiferente

O homem indiferente acordou sem notar que sua música favorita tocava no rádio-relógio que era do pai. Andou um tanto trôpego, esfregando os olhos até o banheiro e, quando tirou o pijama, não viu que um botão pulou fora e foi quicando até o ralo do chuveiro.

Tomou banho com o sabonete de sempre e não reparou no shampoo que estava quase no fim. Por pouco não tropeça no tapetinho embolado na frente do boxe. Continuar lendo