Marcas de Guerra

Queridos, a vida nada mais é do que o conjunto de histórias que você contará aos seus netos.Muitos contarão orgulhosos sobre o dia em que, dirigindo escondido a Harley-Davidson do pai aos doze anos, foram fugir da polícia e,em uma derrapagem brusca, acabaram ganhando aquela cicatriz na panturrilha. Estas marcas de guerra servem para nos mostrar fortes, intrépidos e aventureiros aos nossos descendentes. E gostaremos de relembrar, com os olhos perdidos de nostalgia, as pequenas aventuras que nos deixaram literalmente marcados.Eu tenho uma cicatriz dessas. Não na panturrilha. Na coxa. E ela realmente veio do escapamento de uma moto, que eu posso facilmente transformar em Harley-Davidson para meus netos.

O caso é que eu, como a criança pacata e totalmente adversa a atividades físicas que fui, tenho dificuldades enormes em encontrar marcas para contar histórias e, quando as tenho, as histórias não são realmente empolgantes, me obrigando a recorrer às minhas habilidades literárias para torná-las mais interessantes. Continuar lendo

Aparência

Estávamos eu e a amiga, sentadas no banco em frente àquela livraria grande da Augusta (sempre ela, a livraria), conversando sobre assuntos aleatórios e irrelevantes, quando ele nos abordou.Cabelos por cortar e totalmente desgrenhados em torno da careca reluzente, vários dentes a menos, roupas surradas, sandálias gastas e muitas sacolas nas mãos. Não nos pediu dinheiro. Apontou um dedo na nossa cara e disparou: “Vocês viram o que aqueles desgraçados da câmara aprovaram hoje?”

Um pouco atordoadas pela aparição brusca, arriscamos as críticas seguras: “Pois é, aquilo ali é uma merda mesmo.” E ele prosseguiu despejando informações e opiniões que me deixaram envergonhada por não estar inteirada de um assunto tão grave. Continuar lendo

Um amor de verdade

Eu sempre fui a garota dos clichês.

Aquela que sempre acreditou que um clichê tem mais do que o óbvio a nos dizer. Sempre acreditei que um clichê dito é apenas isso, algo que todo mundo já sabe. Mas um clichê vivido deixa de ser apenas uma frase feita, para ganhar uma nova essência, dessa vez unido à experiência. À sua pessoal e íntima experiência.

E embora, quando escrevo, eu busque fugir dos lugares comuns tudo o que sempre quis na vida foi viver um clichê. Não canso de repetir que a felicidade está na simplicidade, na busca e não no fim. Seres humanos nunca deixam de querer. Sempre estão em busca, ambicionando, desejando. E não percebem que a felicidade é justamente esta: lutar, correr atrás, querer, trabalhar. A conquista é o êxtase, mas é passageira. Não traz felicidade. E é por isso que eu nunca quis apenas um amor, mas um parceiro de viagem. Continuar lendo

Divã

Oi! Há quanto tempo não nos vemos, heim? Senta aqui, por favor. Puxa as almofadas pra lá, que aí dá até pra deitar.

Tá servido de suco? Tem água também. Eu não tenho café, não tomo. Vou ficar devendo.

Eu tô tentando escrever um pouco, pra ver se organizo as ideias do que tem acontecido ultimamente, mas tá foda. Minha cabeça tá meio zoada. Tive duas crises de enxaqueca só na última semana.

O que você tem feito? Tem aproveitado o dia, o sol, a família? Pois é… São coisas que a gente não costuma se dar conta, a não ser que não as tenha mais ao alcance. A gente só sente falta do dia depois que anoitece e do sol, quando tá aquela chuvinha sacana que gela até o pensamento. De família o buraco é mais embaixo Continuar lendo

A razão

Desculpa interromper o seu feriado, mas é que a saudade não me dá um minuto de trégua.

Me acostumei a fazer parte dos seus dias e agora não é mais a mesma coisa dormir, sem a certeza de que no meio da noite você vai me puxar pra perto de si e aninhar entre seus braços.

É que eu quero te contar sobre cada vez que o tempo muda por aqui. Porque tá frio e você prefere o frio, não é? E quando chove eu lembro de você dizendo, irônico, que estava odiando ter que passar o dia na cama comigo.

Tentei ouvir umas músicas pra passar o tempo, mas minha playlist está toda impregnada de momentos nossos. E os momentos ociosos, eu queria passar vendo algum filme que você baixou ou aquela série engraçadinha que passa toda hora na sua nova tv gigante, sabendo que só tenho que ir até ali na sala pra te ver. Até mesmo o cheiro da minha própria pele me trai, porque falta o cheiro do seu suor misturado nele. Continuar lendo

Imortalidade

Acordei com a pressão nos pés da cama.

Meio sonolenta, esfreguei os olhos tentando reconhecer a silhueta que ali estava sentada.

Uma voz feminina soou em meus pensamentos com sarcasmo:

_Sabe o que é mais irônico? Que mesmo você sendo a minha criadora, sua existência é efêmera. Enquanto eu, renascerei todas as vezes que alguém revirar as páginas que você escreveu.

Soltou no silêncio da noite sua gargalhada cristalina, ao mesmo tempo em que se recolheu dos meus olhos para minha mente, onde era seu devido lugar.

Sorri condescendente, sabendo que felizmente ela estava certa.

Memórias de 2010

Então encerramos mais um ciclo.
E acredito que a partir do momento em que o ser humano teve consciência da sua consciência, conscientemente ou não, acaba parando para repensar todos os seus atos, conquistas, tentativas e erros. Da mesma forma que, assim que começou a marcar o tempo de sua existência, deixou esse exercício mental para o encerramento dos ciclos.
Voltas e mais voltas para introduzir o que chamamos de retrospectiva.
Estes ciclos que eu estou encerrando [plural pois, além do final do ano geral, em breve eu também completarei outro ano da minha existência] foram de acontecimentos ímpares. Foi o ano em que me formei. O ano em que tentei diversas vezes e diversas coisas. E não conquistei nenhuma delas. Mas foi o ano em que mais descobri coisas e que aquela pessoa que existia dentro de mim, sufocada por pequenos e grandes medos, cresceu, apareceu, tomou forma e se impôs como quem eu realmente sou. Continuar lendo

Das razões que desconhecemos

Todo mundo tem seu jeito de lidar com a vida. Sem exceção. Parece bobagem, mas não é. Tá bom, é. Mas aposto que a maioria nunca para pra analisar a coisa desse jeito.
Algumas pessoas mais introspectivas, que investem no auto-conhecimento, lêem O Segredo, fazem yoga e por aí vai, assumem o que chamam de “filosofia de vida”.
Eu não li O Segredo. E tô tentando começar a fazer yoga desde o começo do ano. Mas eu já tenho a filosofia, o que é um avanço. E esta envolve algumas frases feitas, que me ajudam a encarar as dificuldades que o destino cria em meu percurso.
Coisas como: “É preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã.”, “Não há escolhas certas ou erradas, apenas consequências.”, “A grande questão da vida não é ser lógico ou sempre ter razão. É não ser chato.”, “Se não me lembro, não fiz” são sentenças que me ajudam a ter alguma coerência ao agir e, pelo menos, ter algo onde me agarrar quando começa a chover merda na minha cabeça. Continuar lendo

Gentileza gera gentileza – ou “A arte de falar sobre clichês”

Sim, eu sei que é clichê. Mas eu preciso repetir mais uma vez que clichês só existem porque acharam a frase bonita, contudo você só compreende realmente um clichê após vivenciá-lo? Acho que não, né? Great.

Cansei de ouvir pessoas falarem da grosseria das pessoas.
Pode não ser maioria, mas eu encontro gente educada TODOS os dias. Sério!

Vou contar dois causos que aconteceram comigo, no ambiente menos propício para gentilezas around the world: o metrô de São Paulo. Continuar lendo

Dia das Crianças: O Festival da Primavera

Na hora de escolher a foto pro avatar de dia das crianças, comecei a rir sozinha ao lembrar de toda a história por trás da foto da flor laranja e ela acabou se escolhendo sozinha. “É esta!”
Quando as professoras da educação infantil do Colégio Palmarino Calabrez começaram a organizar o Festival da Primavera de 93, separaram, em seus conceitos retrógrados e nada democráticos, as meninas em três categorias bem claras: as com altura acima da média seriam borboletas. As meninas de altura mediana seriam flores. E as que costumavam ocupar as quatro primeiras posições pra fila do recreio seriam joaninhas.
Adivinha em qual categoria eu fiquei? Pois é.
Mãs, revolucionária e agitadora como sempre, eu reinvidiquei meus direitos de vestir a fantasia que me apetecesse, o que não teve nada a ver com o fato de todos os collans pretos size PPP da cidade terem desaparecido e minha mãe só ter encontrado um collan verde no meu tamanho. Fiquei sendo flor. Continuar lendo