A futura borboleta

A vida tem maneiras curiosas de bater à nossa porta

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e nos lembrar da nossa pequenez diante da imensidão do mundo. No meu caso não foi bem na porta, mas sim na janela do meu quarto.

Tudo começou quando esqueci o carregador do celular na casa de uma amiga em São Paulo. Como o celular também é o meu despertador, criei o hábito de dormir com a janela aberta para que a luz do sol me acordasse naturalmente. O que aconteceu foi que, quando peguei o carregador de volta, o despertador voltou mas o hábito permaneceu.
E  então, quando chegou o final do ano, época de festas e de recessos na maioria das empresas e, com ele, a hora de fechar a janela para poder dormir até mais tarde, uma lagarta resolveu fazer o seu casulo exatamente no trilho da minha janela, tornando impossível fechá-la sem que fosse necessário arrancar o casulo de lá.

E em um dos primeiros dias de folga, enquanto tentava convencer meu cérebro de que era desnecessário estar mergulhada no breu para dormir, me ocorreu que essa classe de animais poderia ser mais esperta ao escolher um abrigo.

Fiquei pensando, com os meus botões, as encheções de saco que aquela lagarta deveria ter aguentado de amigos e parentes, ao ter escolhido minha janela para o seu sono de beleza.

“Nossa, você vai mesmo ficar aí? Belo futuro você vai ter: será esmagada por aquela janela.”

“Cara, ficou sabendo da Clotilde? Fez casulo na janela de uma humana. Certeza que vai morrer antes mesmo de poder dizer ‘metamorfose’”

“Ela sempre foi uma sonhadora, mesmo. Acreditava que os humanos sabem que lagartas se transformam em borboletas e por isso iriam poupá-la da morte, mesmo sendo uma larva nojenta.” Continuar lendo

Botando o filho no mundo

_Oi! Muito prazer! Antes de começarmos, gostaria que

soubesse que sou um grande admirador do seu trabalho e li todos os seus livros. Tenho particular preferência pelo segundo.

_Olha só! Que bom. Fico feliz.

_Bom, a partir de agora nossa conversa será gravada para facilitar minha redação mais tarde.

_Sem problemas.

_ Começando pela novidade: como foi lançar esse livro, o quarto de sua carreira?

_Ah, cada livro, cada texto escito, é como se fosse o primeiro. Parecem filhos: a gente faz e solta pro mundo. Não podemos querer controlá-los.

_Que interessante sua percepção… Eu também escrevo umas coisas, sabe?

_Imaginei. Jornalista, né… Continuar lendo

Como tocar em meus livros e sair com todos os dedos

Não sou uma pessoa difícil de conviver. 

Sou minimamente organizada, daquelas que não saem do quarto sem arrumar a cama, mas sem ficar alinhando simetricamente os talheres na mesa. Estou de bom humor na maior parte do tempo que não estou de TPM. Limpo minha própria sujeira, sou cheirosa e não deixo minhas roupas largadas. Por outro lado, procuro não invadir o espaço alheio, faço o possível para respeitar diferenças de hábitos e comportamentos e sou sociável.

A única regra que imponho para convivência mútua é: não toque nos meus livros sem minha supervisão.

Livro para mim é sagrado, seja ele a bíblia ou não. Continuar lendo

Apenas

Ela se vestia como qualquer senhora da sua idade. Nela tudo era branco: as calças, a camisa de seda e os cabelos cortados em um chanel. Sem um fio de outra cor, apenas cabelos brancos. Entrou na livraria olhando ao redor, procurando algo ou alguém que a ajudasse.

O rapaz sentado na poltrona vestia camisa e calça social. Gravata não. O cabelo cuidadosamente penteado para o lado mostrava que não era do tipo ousado, que assumia riscos. Gostava de ficar ali sentado, apenas para fugir.

A mulher idosa passou pelo rapaz e se sentou ao lado de uma garota de vermelho, cabelos curtos e olhos azuis. Não as íris. Apenas as pálpebras. Estavam pintadas. Ela estava armada de caderno e caneta. Um perigo. Continuar lendo

O melhor leitor de começos de livro

Numa das tantas viagens, ele se sentou ao meu lado, achando que sua poltrona fosse a da janela. Não era, mas ofereci. Caso ele fizesse questão….

_Não há problema, pode ficar.

Um cavalheiro.

Ao se acomodar, sacou o celular e pronunciou uma breve conversa em inglês. Pelo tom carinhoso da voz e a simplicidade das palavras que usou, supus que estivesse falando com a mulher.

Durante a primeira parte da viagem, eu dormi. E quando acordei, estávamos estacionados na parada e havíamos levado duas horas além do habitual, para chegar até ali. Véspera de feriado. Continuar lendo

Uma história engraçada

Hoje tenho uma história muito engraçada para contar para vocês, a respeito de uma amiga minha.

Nos conhecemos quando nós duas ainda estávamos na oitava série (ginásio, para os mais velhos), mas só fomos ficar amigas mesmo no primeiro ano do colégio (segundo grau, para os mais velhos). Continuar lendo

Aos homens, e às mulheres, sobre os homens

Diariamente vejo mulheres e mais mulheres querendo ser tratadas como princesas e ditando regras aos homens – estes terríveis partidores de corações alheios – do modo como devem ser amadas.

“Queremos ser amadas com romantismo e não ter os sentimentos despedaçados”, dizem minhas colegas de gênero. Continuar lendo

Caixas

Abri a primeira caixa com um leve cheiro de mofo, onde estavam guardados meus ursos de pelúcia. A primeira reação foi uma certa ternura, vindoura dos meus tempos de infância. A segunda foi uma crise de espirros. Esses ursos agora vão secar as lágrimas de outra garota.

Na outra caixa encontrei muitos presentes que ganhei em uma festa de aniversário. Vários deles nunca saídos das caixas. Guardei apenas os cartões com os votos. Uma coisa ou outra separei, por afeição ou utilidade futura.

A terceira caixa doeu mais. Brinquedos velhos, álbuns de fotos, livros infantis. Todos me trazendo uma enxurrada de lembranças que eu gostaria que tivessem ficado encaixotadas com eles, em algum lugar bastante fora do meu alcance. Mas, secando o rosto com as costas das mãos, olhei para a minha boneca favorita e não tive forças de colocá-la para doação. Alguns objetos ali me trouxeram algo que quase não sinto da minha época de criança: saudade. Então também separei. Continuar lendo

A senhora do brinco de pérola

No dia do meu aniversário, acompanhei meus avós ao médico.O hospital era na capital, e eles ficam inseguros de desbravar o metrô paulista, com sua infinidade de linhas e estações novas.Eu não sabia muito bem como chegar lá, mas tecnologia é pra essas coisas mesmo e com o Google Maps, mais o GPS chegamos sãos e salvos ao destino.Enfrentamos a área metropolitana, com suas pessoas apressadas, multidões que se movem como cardumes e filas. Muitas filas. Olhando esse mar de rostos, entendemos de onde surgem os clichês e o porquê de esquecermos que cada pessoa que nos cruza o caminho é um universo.Passamos pelo mundo como se todos que nos cercam fossem apenas mais um. Porém são nossas experiências que nos fazem únicos, e principalmente, é justamente essa individualidade que nos faz iguais.

Enquanto esperava meu avô ser atendido, duas senhoras – ambas entre setenta e cinco e oitenta anos – se sentaram ao meu lado e a mais delicada, de cabelo louro e brinco de pérola, falou-me sobre a insônia que enfrentara aquela madrugada.

_Acordei uma da manhã e não dormi mais. Então levantei, faxinei a sala e passei toda a roupa, até ela acordar – e apontou para a irmã ao seu lado.

A outra acrescentou que viviam juntas desde sempre e a irmã era muito mais organizada que ela, com mania de limpeza. Continuar lendo

A esperta

Embora filha única até os dez anos, sempre quis ser motivo de orgulho para os meus pais.Descartando qualquer possibilidade de ser a filha mais bonita, ou a atleta, cheguei à conclusão de que teria de ser a mais inteligente. O que não quer dizer, necessariamente, a mais esperta.

Explico.

No alto dos meus sete, oito anos de idade, estava eu singelamente brincando em meu cantinho da bagunça, estrategicamente posicionado pela minha mãe do lado de fora da casa, mais especificamente ao lado da lavanderia.

Acredito que, naquele dia em específico, estivesse brincando de escolinha. Eu era a professora, óbvio, já que meus alunos eram minhas bonecas e meus ursinhos de pelúcia. Continuar lendo