Saudade

Ele guardava as compras no porta-malas, no estacionamento do supermercado, quando sentiu que lhe tocavam o ombro.

Virou-se para ver quem era e deu com uma senhora bastante idosa, roupas limpas e cabelos brancos um pouco bagunçados pelo vento. Ela ainda pousava a mão, leve como uma pena, em seu ombro e sorria embevecida, enquanto o encarava.

_Oi! A senhora precisa de ajuda?
_Por onde você andou esse tempo todo, Fábio?
_Desculpe, mas acho que não a conheço…

Ela esboçou uma expressão resignada e acariciou o seu rosto com ternura.

_Claro, claro… Faz tanto tempo… É claro que não se lembra de mim. Sou sua avó, meu filho!

Ele a observou por um tempo e então pareceu se lembrar. Segurou a mão que estava em seu rosto e beijou-lhe a palma.

_Puxa, vó! Me perdoe por não reconhecer a senhora! É que seu cabelo não era tão branco assim!

Ela o puxou para si e o abraçou com força.

_Sim, Fábio! Estou bem mais velha. Mas você está um homem forte agora. Está bonito.
Ele enrubesceu e ajeitou a jaqueta.

_Pare com isso. Avós são suspeitas. Como vai todo mundo?
_Bem, seu tio só trabalha, como sempre. Sua tia ainda mora comigo e cuida de mim. Seu avô faleceu faz um tempo. Faz muito tempo que não vejo seus primos.

Ele percebeu que as mãos dela tremiam e que os passos eram um pouco trôpegos. Então a convenceu a sentar no banco do passageiro, até que ele terminasse de guardar as compras. Depois também entrou no carro e se ofereceu para levá-la em casa.

Ela foi indicando o caminho.

_Por que nunca mais foi me ver, Fábio? Eu sinto tantas saudades…
_Ah, vó… É a correria, né? Eu trabalho a semana toda, tenho aluguel para pagar, estudo à noite…
_Tem que parar de correr assim, menino! Vai ficar velho antes da hora – e gargalhou com gosto, jogando a cabeça para trás. Ele admirou aquele riso tão franco e não pôde evitar rir junto a ela. _De verdade. Não deixe de vir me ver. Eu gosto de saber como meus netos estão.
Chegaram em frente ao portão verde descascando. Estacionou, desceu do carro e tocou a campainha. Depois deu a volta no carro para ajudá-la a descer.
_Vamos chegar um pouquinho?
_Não, vó. Não quero dar trabalho para a tia. Só vou deixar a senhora aqui e voltar para terminar meus trabalhos da faculdade, tá?

Uma mulher grisalha e aflita abriu o portão.

_Mãe, por onde a senhora esteve? Quase me deixa louca de preocupação! Já estava ligando para a polícia.

Abraçou a mãe e só então pareceu se dar conta do rapaz que a acompanhava. E antes que pudesse esboçar reação, a velhinha se manifestou:

_Olha quem eu encontrei no mercado! O Fábio! Só assim para ele vir visitar a gente!
A mulher grisalha o encarou sorrindo e também o abraçou.
_Que bom revê-lo, Fábio! Como está alto!

Ele sorriu de volta e pediu desculpas, mas precisava mesmo ir embora. Não sem antes abraçar novamente a avó e recomendar-lhe que não saísse de casa sem antes avisar a tia.

_Mas se eu aviso ela nem me deixa sair! Fica querendo me prender em casa, até parece que sou criança…

Entrou pelo portão a resmungar sozinha, enquanto os outros dois permaneciam na calçada observando-a se afastar.

Quando ela transpôs a porta da casa, a mulher se voltou para o rapaz. Ele se desculpou:

_Me desculpe trazê-la em casa. Mas ela veio falar comigo no estacionamento do mercado e acho que me confundiu com alguém. Sorte que se lembrou do caminho de volta.

A mulher abanou a cabeça, em sinal de compreensão.

_Não precisa se desculpar. Não sei como agradecer por tê-la trazido até aqui. Eu estava desesperada. Ela tem alzheimer e durante as crises de ausência começa a perguntar pelo neto Fábio, que morreu já faz muitos anos. Dessa vez conseguiu fugir de casa e foi procurá-lo na rua. Foi sorte ter encontrado alguém disposto a ajudar. Novamente, não sei como agradecer.

Ele encarou as própias mãos, comovido.

_Não precisa agradecer. Foi um prazer. Ela é encantadora.

Despediram-se e ele entrou no carro. Antes de dar a partida, pegou o celular e fez uma ligação.
_Alô? Vó? Oi, sou eu… Estou com saudades…

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9 pensamentos sobre “Saudade

  1. Caramba adoro seus textos, queria conseguir usar textos cliches assim, da mesma forma sensacional que vc consegue, quando começo a lê-los, geralmente já sei o que virá no final, não tem aquela surpresa, ou climax, mas ainda assim, sinto que tenho de terminar de ler, não sei como vc consegue isso, mas lhe dou os parabens. Espero que nao se ofenda com o fato de ter dito que são cliches, mesmo pq isso nao os desmerece, nem os deixa ruins, só dá de fato uma forma nova de lê-los, e que faz com que eu nao me surpreenda pelo história que se narra no texto e sim pela forma como foi escrito. Continue com esses textos muito bons.

  2. PUTA QUE PARIU HEIN DEKA!!!! Que texto lindo!!!
    Me fez chorar (de verdade) e me lembrar da minha avó, de cabelos brancos e que tinha alzheimer.. Infelizmente agora não posso mais ligar pra ela, já faleceu, mas é bom lembrar com carinho de quem é importante na nossa vida!
    Parabéns!!

  3. Deka, simplesmente sensacional! Parabéns!
    Adoro receber o feed dos seus contos em meu e-mail. E são tão bem escritos, que quase na mesma hora venho até seu blog para lê-los novamente.
    Sobre este em particular, lembrei-me imediatamente do meu ex-sogro, que faleceu devido ao Alzheimer. Ele sempre fugia, e chegou a ficar 2 dias sumido.

    Meus parabéns novamente! ;)

    • Oi, Samej! Eu particularmente me inspirei em minha bisavó, já falecida há um bom tempo. Nos últimos anos dela, virou uma criança. Aprontava várias artes hahahaha. Mas não era fujona.

      Obrigada por comentar ^^

  4. Realmente, os portadores do mal de Alzheimer voltam a ser crianças, (pelo menos a maioria delas). Só sabe o que é isso quem acompanhou de perto.
    Eu só não comento as “peripécias” do meu ex-sogro aqui para não manchar a beleza deste maravilhoso texto. Pois prefiro lembrar do passado com o ponto de vista que tu deixaste registrado aqui! rsrsrs
    Sobre comentar aqui, o prazer é meu. Eu adoro quando comentam no meu blog. E penso que da mesma forma que eu gosto, outros também gostam quando comento. Particularmente, eu sigo aquela filosofia: “Faça aos outros aquilo que quer que lhe façam a ti!”.
    E comentar no seu blog é um prazer dobrado, pois ao menos para mim, cada novo texto, cada novo conto, é um raio de sol a mais que ilumina meu dia, trazendo beleza e conforto.

    Parabéns novamente! ;)

  5. Que saudades da minha vó. Via-me e todos em volta diziam “-Ela não lembra de ninguém, não sabe quem é você.” e ela respondia prontamente “- Sei sim, este é meu filho, filho do meu filho.”
    Morreu como um passarinho, miudinha, três dias depois de segurar forte a minha mão e chorar, quando todos achavam que ela já não estava consciente.

    Lindo texto.

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