Presença
Acordou de madrugada e a preguiça não permitiu que abrisse os olhos.
Esfregou o rosto, coçou as pálpebras e virou para o outro lado para voltar a dormir, quando suas mãos apalparam o vazio ainda morno, do outro lado da cama. Então abriu os olhos.
O lençol branco e revolto ainda guardava o calor do corpo que esteve ali deitado nos últimos minutos. A cabeça, que repousava naquele travesseiro, havia esquecido alguns fios lisos e louros.
Houve um ruído de água no banheiro, então ele sorriu levemente, feliz por tê-la ao seu lado.
Era bom acordar de madrugada, com a cama vazia, e saber que ela estaria de volta em poucos minutos, usando uma camisa sua para esconder o corpo nu.
Traria do banheiro o seu perfume de baunilha, as mãos geladas por terem sido lavadas. Ou então o calor do chuveiro na pele macia e coberta de penugem fina.
Quis que o banho acabasse logo, para que ela voltasse e o envolvesse com os braços delicados. Provavelmente sussurraria desculpas em seu ouvido, por tê-lo acordado. De certa forma ele gostava dessa ausência que logo seria preenchida pelo brilho que ela trazia para sua vida.
O sono o fez cochilar mais uma vez e ele sonhou com ela. Lembrou-se do seu beijo cuidadoso e terno. Os lábios largos, sempre estendidos em um sorriso grande. O jeito de segurar seu rosto com as duas mãos, enquanto o beijava, ou deslizar a mão para a sua nuca para acariciar-lhe os cabelos.
Acordou com um sobressalto, quando ouviu o boxe do chuveiro sendo aberto. Estava excitado somente pela expectativa de abraçá-la contra o seu corpo e senti-la ressonando, até que a respiração ficasse leve pelo sono. Normalmente o cabelo dela lhe fazia cócegas no nariz, e ele precisava de muito controle para se mover bem devagar e não acordá-la.
Foi na hora em que a porta do banheiro se abriu, e em vez dela vestindo sua camisa, surgiu uma garota loura envolvida na toalha, que ele recordou que seus cabelos, na verdade, eram castanhos.
Enquanto a garota dirigia-lhe um sorriso e caçava as próprias roupas, pela penumbra do quarto, ele se lembrou que não fora com sua amada que passara as últimas horas e sim com a desconhecida que encontrara em um bar qualquer.
Fechou os olhos e suspirou profundamente, mas não foi o perfume habitual que invadiu-lhe as narinas, e sim um aroma cítrico desconhecido.
A garota loura, já vestida, pegou as chaves do carro no criado-mudo, vestiu o relógio, calçou os sapatos e se despediu com um beijo na testa. Ele lhe disse que não precisava trancar a porta do apartamento.
Foi embora deixando-o sozinho com o vazio na cama e o silêncio do quarto, que juntos, pareciam uma terceira pessoa, de tão grandes.
Não. Ela nunca mais voltaria.





Excelente! Me senti apaixonado e abandonado, assim como o personagem.
Obrigada! \o/
Excelente texto. Reflete o quanto o amor fica marcado na memória, e nota-se o amor também inspirando a escritora, mas mostra também o vazio que se tem quando se busca o sexo fácil, a falta de compromisso. Quanto mais queremos ficar “sem amarras”, mais nos amarramos a um precipício de sentimentos abandonados e desgostosos com o mundo.
Muito obrigado por mais esta obra-prima.
Caracas… estes contos são sempre demais! Toda vez que leio fico assim, sem ter o que falar. Parabéns!
Eu não queria chorar nessa sexta! Boba
Vem cá que eu te consolo, SUA LINDA! hahahahaha
Me senti abandonada junto com o cara.
Gostei particularmente da parte “Foi embora deixando-o sozinho com o vazio na cama e o silêncio do quarto, que juntos, pareciam uma terceira pessoa, de tão grandes”.