A esperta
Descartando qualquer possibilidade de ser a filha mais bonita, ou a atleta, cheguei à conclusão de que teria de ser a mais inteligente. O que não quer dizer, necessariamente, a mais esperta.
Explico.
No alto dos meus sete, oito anos de idade, estava eu singelamente brincando em meu cantinho da bagunça, estrategicamente posicionado pela minha mãe do lado de fora da casa, mais especificamente ao lado da lavanderia.
Acredito que, naquele dia em específico, estivesse brincando de escolinha. Eu era a professora, óbvio, já que meus alunos eram minhas bonecas e meus ursinhos de pelúcia.
Entre a tarefa de casa e um grito para que os estudantes calassem a boca, achei que já era hora de terminar a aula, então comecei a arrumar minhas coisas, não sem antes dispensar meus pupilos e representar teatralmente cada mãe buscando seu respectivo filho na instituição de ensino.
Juntei os papéis que fazia de diário de classe, apaguei a lousa e juntei todos os gizes coloridos dentro da caixinha, tampando com o apagador que encaixava. Empilhei os livros velhos de um lado e juntei todos os cadernos do outro. Então repensei, e guardei os cadernos em uma sacola plástica – dessas de mercado que em breve serão extintas por conta da preservação do planeta – para levá-los à minha casa e corrigir as lições dos pequenos. Estava me sentindo muito adulta e profissional, até o instante em que achei que seria uma ótima ideia segurar a sacola pelas alças e girá-la (como fazem os padeiros com o saco cheio de pães) para fechar.
É claro que eu não tinha braços suficientes para o tamanho da sacola, o que resultou em uma sacolada cheia de cadernos em cheio no meu nariz.
Larguei os cadernos no chão e sentei tonta, segurando o nariz com as duas mãos, os olhos lacrimejando e tentando não pensar nos palavrões que havia aprendido na escola (a de verdade), mas que me pareciam bastante eloquentes para expressar os meus sentimentos mais urgentes, naquele momento.
Quando senti a dor diminuir um pouco, achei que ajudaria jogar um pouco de água fria, então corri até o tanque, ainda segurando o nariz. Chegando lá, tirei a mão e meus dedos estavam cobertos de sangue.
O terror.
Pensei em gritar, até cheguei a abrir a boca para tal ato, mas desisti com medo da reação da minha mãe. Adivinhava que sua primeira atitude seria perguntar como eu, brincando sozinha de escolinha, teria conseguido realizar a inacreditável façanha de arrebentar meu próprio nariz. Também me imaginei descrevendo a cena da sacola e os cadernos e engoli o grito, preferindo manter meu orgulho.
Lavei secretamente o nariz no tanque, até que parasse de sangrar e tomei coragem para tocar a cartilagem, conferindo se não estava quebrado. Como meu nariz parecesse tal qual sempre fora, resolvi guardar os apetrechos da brincadeira de escolinha e voltar para dentro de casa para atividades mais seguras, como ler algum livro no sofá, ou caçar as formigas que andavam pelo chão da sala.
Foi no momento em que pus os pés na porta, que minha mãe gritou “POR QUE É QUE SUA CAMISETA TÁ CHEIA DE SANGUE, MENINA????”, com aqueles olhos apavorantes de mãe descontrolada, que eu entendi que aguentar bravamente a dor e cuidar sozinha de meus ferimentos não servira de nada para ocultar meu mico.
Então, mais rápido que pude, arquitetei uma história em minha cabeça para salvar o que restava da minha honra.
_Sabe que é, mãe? Eu tava brincando de cego, né. Andando lá no quintal de olhos fechados. Aí eu trombei no muro, meu nariz sangrou e manchou a…
Nesse ponto da narrativa, minha mãe, minha tia e mais algumas convidadas que lá estavam dispararam a rir da minha pequena face e eu compreendi que a emenda saíra pior que o soneto. Também compreendi o valor de saber manter o sangue-frio sob pressão, habilidade que não me constava e busquei adquirir posteriormente, pelo bem da minha dignidade futura.
Resolvi então me dedicar fortemente à leitura e estudos, para provar que inteligência supera a esperteza. Se consegui provar, ainda não sei. Mas me tornei escritora.
Não que isso seja sinal de esperteza.





Sensacional. Mas eu acho que até hoje você não conseguiria girar uma sacola sem levar uma sacolada no nariz…
Nem vou tentar pra descobrir hahahahahaha
Tadinha de você, Deka!
Mas é bom saber que eu não era o único a brincar de cego quando pequeno. Aliás, brinco até hoje, mas com mais seriedade, é claro!
Fiquei curiosa para saber como você brinca de “cego a sério”, agora hahahaha
Ia fazer uma piada, mas o Léo fez antes =P
Muito legal, Deka! Fez lembrar das minhas brincadeiras… eu era muito quieta, tímida e brincava sozinha muitas vezes, mas tinha, digamos, uma imaginação fértil…rsrsrs Rio até hoje lembrando das minhas brincadeiras… Ai, bateu uma nostalgia! =)
Genialidade infantil é algo admirável…
Gostei do POV infantil, me fez lembrar de quando eu era criança e a fantasia era fácil de ser criada…
Na minha opinião a gente tem que dar um jeito de sempre manter um pouco de criança, pro resto da vida.