Aparência
Estávamos eu e a amiga, sentadas no banco em frente àquela livraria grande da Augusta (sempre ela, a livraria), conversando sobre assuntos aleatórios e irrelevantes, quando ele nos abordou.Cabelos por cortar e totalmente desgrenhados em torno da careca reluzente, vários dentes a menos, roupas surradas, sandálias gastas e muitas sacolas nas mãos. Não nos pediu dinheiro. Apontou um dedo na nossa cara e disparou: “Vocês viram o que aqueles desgraçados da câmara aprovaram hoje?”
Um pouco atordoadas pela aparição brusca, arriscamos as críticas seguras: “Pois é, aquilo ali é uma merda mesmo.” E ele prosseguiu despejando informações e opiniões que me deixaram envergonhada por não estar inteirada de um assunto tão grave.
Enquanto ele praticamente discursava à nossa frente, eu me flagrei ainda mais constrangida por não ter percebido a sua presença, até que nos dirigisse a palavra. Por conta de sua aparência andarilha, tornou-se mais um daqueles chamados “invisíveis”.
O velho continuou sua palestra, com voz firme e sem gaguejar. Falou sobre música, Jimmy Hendrix, John Lennon, os Beatles e Yoko Ono “Aquela vadia, que entrou na vida dele. Acabou com o coitado. A paixão acaba com as pessoas, moça. Você já se apaixonou?”
Sim. Já me apaixonei muitas vezes e fui destruída em todas elas.
Então ele me perguntou o que eu estava fazendo e eu respondi que estava vendendo livro.
“Ah, você é vendedora de livros?”
Não. Sou escritora.
“Não acredito! Isso é mesmo admirável!” E apertou efusivamente minha mão, me cumprimentando pelo meu livro de contos. Perguntou mais, se eu continuava escrevendo e falei do meu projeto de livro infantil.
“Parabéns, moça! A única coisa que presta nesse mundo são as crianças e os animais. Tenho uma coisa aqui para te mostrar.” Fuçava nas sacolas, enquanto não parava de tagarelar. Desejava boas festas, aleatoriamente, às pessoas que passavam pelo conjunto nacional e recebia um aceno tímido, quando não era ignorado.
Quando encontrou o que procurava, percebi o que havia dentro da bagagem que carregava: livros e mais livros. De todos os assuntos. O que ele me estendeu era um livro amarelado e cheio de pontos de mofo, que dissertava sobre “200 jogos infantis”.
Dei uma folheada no volume, fingi ler a orelha, enquanto continuava a analisar aquela figura á minha frente. Ele cumprimentava as moças por sua beleza (não cantadas, mas cumprimentos), desejava sorte ao bebê da mãe que empurrava o carrinho e um feliz natal à menininha que usava um vestido de babados. “Que coisa mais linda, essa criança.”
E a mãe trancou a cara, apertou o passo, com aquele olhar duro, reservado aos marginais. Me deu vontade de ir até ela e dizer: “Moça,
abaixa a bola. Esse homem tem mais cultura do que nós duas juntas.”
Acabei comprando o livro velho, do velho. Não por que o assunto me interessava, sequer porque precisava dele. Mas pela conversa, pelos comentários pertinentes que ele soltava a cada momento. Pela cara-de-pau. O homem estava além das convenções sociais, não precisava mais da aprovação das pessoas.
Ele pegou o livro e me perguntou se eu conhecia a música Happiness is a Warm Gun, dos Beatles. E me disse que felicidade é viver e poder continuar tentando. Um novo dia já é uma benção.
Na capa do livro escreveu: “A Deborah, desejando felicidade. Com carinho, do amigo Verdi” e a data.
Espero que meu imã para malucos nunca pare de funcionar. Gente que se enquadra nunca me acrescentou nada além de verdades prontas.





Já me encontrei em algumas situações desse tipo. E quando você interage com eles e percebe a singularidade de cada um consegue ver realmente como eles são marginalizados pelos outros.
Acho que nós mogianos temos imãs para malucos. Experiencias assim são fora do comum. E eu adoro quando elas acontecem.
Parabéns pelo livro
Qualquer um que fuja do convencional e se sobressai da maioria, já é tachado de maluco. Não precisamos ir muito longe para encontrá-los. E os semelhantes se atraem
Sempre me surpreendo quando deixo de lado o receio e paro pra ouvir esses tais “malucos”, já aprendi muitas lições boas vindas dessa loucura toda…
teve uma certa pimenta q me mostrou esse lugar ai da foto… tb pra fugir da chuva hehehehe….
Proxima vez q der vou pra ai de novo pra visitar vc!
Foi mesmo um dia inesquecível e uma situação super inusitada que vivemos pela Paulicéia Desvairada, e você a transformou em uma linda e bela história. Parabéns, minha pequena escritora. Super beijos pra ti! :*