Divã

Oi! Há quanto tempo não nos vemos, heim? Senta aqui, por favor. Puxa as almofadas pra lá, que aí dá até pra deitar.

Tá servido de suco? Tem água também. Eu não tenho café, não tomo. Vou ficar devendo.

Eu tô tentando escrever um pouco, pra ver se organizo as ideias do que tem acontecido ultimamente, mas tá foda. Minha cabeça tá meio zoada. Tive duas crises de enxaqueca só na última semana.

O que você tem feito? Tem aproveitado o dia, o sol, a família? Pois é… São coisas que a gente não costuma se dar conta, a não ser que não as tenha mais ao alcance. A gente só sente falta do dia depois que anoitece e do sol, quando tá aquela chuvinha sacana que gela até o pensamento. De família o buraco é mais embaixo

Família é mais do que as pessoas que têm o seu sangue. Tem o lance da sinceridade, do conforto, da segurança. É onde você tá e pensa “putz, aqui eu tô em casa” e quando tá longe, não vê a hora de acabar o que tem de fazer pra voltar e descansar. Você só se liga na necessidade disso, quando tá fora e não tem vontade de voltar. Sei lá, dá uma sensação desgraçada de que tudo é provisório.

Às vezes acho até que fico assim porque penso demais em coisas pequenas, sabe? Porra, uma coisinha que era pra ser corriqueira, tipo entender que todo mundo é humano e sujeito aos mesmos erros, todo mundo sabe disso. Só que eu tento botar em prática e só me ferro! É engraçado a forma como não dá pra fazer nada nesse mundo esperando que façam o mesmo contigo. Pra falar a verdade, não dá nem pra contar com a consideração das pessoas.

Aí quando você toma uma porrada da vida e sai meio cambaleando, a primeira coisa que aparece é geral te apontando o dedo, vomitando verdades prontas, que não foi nem ele que fez. Na boa, se for pra arrotar clichê dos outros por aí, eu também faço. Quero ver é quem é macho o suficiente pra VIVER o que diz.

A vida tem uns jeitos engraçados de ensinar as pessoas. Ela é meio brusca e não te dá muitas chances, não. Mas também não dá pra se proteger de tudo, né? Que raio de ser humano vai ser aquele que cresce numa bolha, com medo do mundo, da violência, de se decepcionar, de mudar, de tentar… Quer dizer… Não cresce, né?

Das coisas que a gente tem certeza da vida, é a morte, a dor e o sofrimento. Uma hora isso vai acontecer e a gente vai ter que enfrentar, ué. Fugir não é viver.

Tá, é certo que tem coisas que se você perder uma vez não tem mais volta. Confiança, por exemplo. As chances da confiança voltar são mínimas e se acontecer, nunca mais vai ser a mesma coisa. Não dá pra querer conquistar confiança, nem respeito no grito. Você só consegue dando o exemplo e tenha em conta que é apenas uma vez. Perdeu, meu querido, já era.

Até perdão você consegue fácil. Agora tenta perder o respeito de alguém, pra ver.

Mas, se tem coisa que dói mesmo, é quando o teu herói sangra. Não tô falando de um porre de vez em quando, ou desrespeitar a vaga de idoso porque precisava ir rápido até o banco. O que não dá pra admitir é ver tudo o que você sempre admirou nessa pessoa se perder aos poucos. O seu super poder se enfraquecer, sem kriptonita. Você se espelhava nele e daí, quando você olha pro reflexo, vê alguém que você não quer ser. Você até tenta se orgulhar de novo, mas se descobre querendo ter a chance de ser diferente.

Aí, meu amigo, o seu mundo cai. A gente consegue perdoar tudo. Até traição. Mas a morte de um ídolo te mata um pouco também. E aí você precisa de um tempo pra se acostumar com o seu novo eu, sem ter um exemplo pra seguir.

Mas, eu divago. Pode me dizer que horas são?

Oras, mas então já se acabou a sua sessão! Peço mil perdões, você é a paciente aqui e eu é quem devia estar te ouvindo. Acho melhor você passar na recepção e marcar outra consulta.

Marcia, mande entrar o próximo, por favor?

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