O Corpo – Parte 2

Este post é continuação do conto O Corpo. Leia a primeira parte antes de prosseguir.

Subia ofegante, os degraus do prédio.

Aquele lugar tinha sido sua casa nos últimos anos e refúgio da paixão que foi moldada com o tempo: o oculto.

Durante as aulas aprendeu sobre cultos antigos, deuses misteriosos e sociedades secretas. O assunto cada vez mais despertava seu interesse, até que começou a procurar livros que tratassem de qualquer coisa relacionada a magia e rituais pagãos, participava de palestras e debates sobre ocultismo.

A companheira de quarto não compreendia sua obsessão, que a levava a ter símbolos místicos pintados na parede, pôsteres com encantamentos, imagens relacionadas a diversos rituais de crenças pagãs.

Ela se incomodava, mas não culpava a garota. Ela era atlética, do perfeito estereótipo da bela cheerleader que fazia sucesso pela ala masculina. O pouco tempo que restava das suas horas dedicadas à própria beleza, ela lutava para manter a bolsa da faculdade de fisioterapia. Então sobrava quase nada para entender o que se passava na metade do quarto que não ocupava.

Se prestasse mas atenção à colega de quarto, teria notado que na noite passada a garota havia pronunciado frases estranhas durante um sono agitado.

No sonho, caminhava entre ruínas de uma igreja, sob um céu azul e ensolarado. O que restou das pedras sobrepostas lembrava a arquitetura medieval. E se ainda havia restado alguma imagem esculpida nas paredes decrépitas, foi coberta pelo musgo e trepadeiras que cresceram com o tempo. O sonho era tão real, que ela podia sentir a brisa fresca que soprava no local e sua pele se arrepiou. Não sabia como havia chegado lá, nem o que estava fazendo exatamente, até que um movimento à sua frente lhe chamou a atenção. Estreitou os olhos, tentando focalizar o que se movia, mas mesmo sob a luz do dia claro, entrevia apenas o vulto.

Estranhamente, a voz veio de todos os lados, como se estivesse imersa nela, mas soube que era a figura que observava que falou:

“Pode me pedir qualquer coisa que queira. Visito-a porque seu sofrimento me atrai e gostaria de amenizá-lo. A vida deveria ter mais escolhas e dedico minha existência a dar um jeito nisso.”

Ela sentiu um misto de excitação e medo que a sufocou por uns instantes. Não precisava nem pensar, para saber qual seria o seu pedido, mas não confiava em quem não conseguia ao menos ver direito.

“Qualquer coisa?”

“Sim. Qualquer. E prometo entregar-lhe tal como foi pedida, se me der em troca aquilo que preciso.”

“Mas do que precisa? E por que eu?”

“Suas lágrimas me disseram que faria qualquer coisa para alcançar o que deseja. E sei que somente esse sentimento pode dar forças para cumprir com o trato.”

Soava cada vez mais bizarro e assustador. Ainda assim, a curiosidade e a ambição a impulsionaram a continuar.
“Mas qual trato?”

“Para ter a energia necessária para cumprir teu desejo, preciso possuir uma alma que se apegue à vida. Quando se decidir, apenas pronuncie o meu nome e o que deseja em voz alta, tão logo tenha o pagamento a me oferecer e o alcançará imediatamente.”

Ao dizer isso, a brisa intensificou-se até se transformar em um vento fortíssimo. Tudo a sua volta começou a se desfazer em areia e estava sendo arrastado em espiral, girando em torno de seu corpo.

Precisou gritar para terminar o diálogo:

“Então me diga o seu nome!”

Foi nessa hora que acordou. Sentou-se em um impulso, gritando o nome da entidade. Olhou em torno, tentando entender onde estava e se deu conta que segurava o lençol com muita força. Tinha o corpo todo suado, respirava com dificuldade.

Aos poucos reconheceu o quarto. A amiga não estava mais lá. Olhou no relógio e descobriu que estava atrasada para a aula.

Enquanto mudava o pijama de flanela pela roupa do dia, resolveu ir à biblioteca e pesquisar o nome do ser que surgiu em seus sonhos, para descobrir o quanto daquela loucura poderia ser realidade.

Continua… Leia a parte 3

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6 comentários sobre “O Corpo – Parte 2

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