O Corpo

O último livro estava lá, levemente empoeirado, como sempre. Não era sorte. Aqueles corredores da biblioteca eram pouco frequentados. Depositou a bolsa no chão e subiu os degraus da escadinha móvel para alcançá-lo, enquanto segurava a coxinha entre os dentes.

Quase perdeu o equilíbrio enquanto descia. Apoiou-se na estante e ouviu, com amargura, a madeira estalar sob seu peso.

Pôs a bolsa no ombro, ao mesmo tempo que o livro caiu de sua mão. Curvou-se para pegá-lo e a alça da bolsa pendeu de seu ombro. O breve instante de dúvida, se pegava o livro ou segurava a bolsa, a desestabilizou e tudo foi ao chão. Até a coxinha.

Praguejando, abaixou-se com dificuldade, pegou a bolsa, o livro e a coxinha. Embrulhou a última no guardanapo, recolhendo os pequenos restos de frango que se espalharam, endireitou o corpo com um suspiro e retomou o caminho de volta.

Saiu da biblioteca e atravessou o campus, em direção aos alojamentos, sem cumprimentar ninguém. Era incrível como passava despercebida, mesmo com todo o seu tamanho. As pessoas chegavam a desviar do seu caminho, mas nunca a olhavam nos olhos.

Esses pensamentos a fizeram inconscientemente pressionar o livro com um pouco mais de força. Lembrou-se de quando ambicionava ser invisível, no colégio, para escapar às maldades e comentários maliciosos dos companheiros de classe. Tornou-se invisível ao chegar na faculdade, ofuscada pelas garotas magras de seios grandes. E descobriu que isso podia doer ainda mais.

Refugiou-se na imaginação. Tinha paixão por livros, especificamente os de fantasia e magia, que contava estórias de seres fantásticos que habitavam florestas encantadas, bruxas enfeitiçando reinos inteiros, reis déspotas, princesas agraciadas por dons.

Todo esse interesse a fez buscar a faculdade de História. Queria saber o que havia de real, por trás de tantos contos magníficos. Queria descobrir onde cada um deles nasceu e como foi sendo construído através dos tempos.

Parou ao lado de uma lata de lixo para jogar a coxinha fora. O salgado estava na mesma mão que o livro, então precisou ajeitar todos os objetos que carregava antes de jogá-lo, quando um rapaz, que andava de costas ao mesmo tempo que falava com os amigos, se chocou contra ela.

Ele se voltou preocupado, pedindo desculpas, enquanto lhe ajudava a recolher os livros:

“Desculpe, não vi você!”

Ela apenas sorriu tristemente. Ele nem precisava ter se explicado.

Continua… Leia a parte 2

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13 thoughts on “O Corpo

  1. vc me conhece?Parecia estar escrevendo sobre mim.Nao sou gordinha mas fui me tornando invisivel ao longo dos anos.Ate para mim mesma,nao me enxergo mais.Vc entende?Aguardo a continuacao.Vc escreve mto bem.Parabens!!!!

  2. Pingback: O Corpo – Parte 2 « Memórias da Pedra do Sapato

  3. Pingback: O Corpo – Parte 3 « Memórias da Pedra do Sapato

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