Das razões que desconhecemos

Todo mundo tem seu jeito de lidar com a vida. Sem exceção. Parece bobagem, mas não é. Tá bom, é. Mas aposto que a maioria nunca para pra analisar a coisa desse jeito.
Algumas pessoas mais introspectivas, que investem no auto-conhecimento, lêem O Segredo, fazem yoga e por aí vai, assumem o que chamam de “filosofia de vida”.
Eu não li O Segredo. E tô tentando começar a fazer yoga desde o começo do ano. Mas eu já tenho a filosofia, o que é um avanço. E esta envolve algumas frases feitas, que me ajudam a encarar as dificuldades que o destino cria em meu percurso.
Coisas como: “É preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã.”, “Não há escolhas certas ou erradas, apenas consequências.”, “A grande questão da vida não é ser lógico ou sempre ter razão. É não ser chato.”, “Se não me lembro, não fiz” são sentenças que me ajudam a ter alguma coerência ao agir e, pelo menos, ter algo onde me agarrar quando começa a chover merda na minha cabeça.
E do meu manual de instruções, meu maior ponto de equilíbrio é “Nada é por acaso”. Pois é, eu sou romântica. Não acredito em coincidências, creio em destino e predestinação. Pra mim, tudo o que te acontece te prepara pra sua missão nesta vida, por mais que sua missão seja apenas fazer alguém se sentir bem.
A questão é, que o meu Personal Destinaitor Plus, deve ser um tremendo dum palhaço filho da puta, que se diverte às minhas custas, porque eu nunca vi a filosofia de alguém ser tão incansavelmente testada.
Daí, que em uma bela quinta-feira, final de expediente, estava eu tentando controlar com o poder do pensamento os roncos do meu estômago, quando me lembrei que em minha bolsa ainda restava um dos bolinho Panco de morango, do pacote de duas unidades que eu havia levado.
Levantei serelepe e saltitante da minha mesa, peguei o bolinho na bolsa e voltei pra recepção. Era horário de grande movimento e era necessário esperar todos os alunos daquele horário entrarem, já que atendê-los com a boca cheia de bolinho com recheio de morango não era uma opção.
Movimento caiu, peguei o bolinho da gaveta, abri a embalagem e quando o coro de anjos já começava a entoar “Aleluia”, uma aluna voltou à recepção para pedir informação sobre sua documentação pendente.
Guardei o bolinho de volta na gaveta e comecei a looonga expicação a respeito da documentação. Insistente, ela quis falar com a responsável pela secretaria. Então liguei no ramal, mas a secretária estava em reunião. Paciente, a aluna diz que esperava. Joguei a última carta que me restava: “Se quiser aguardar na biblioteca, que tem sofá… É mais confortável e a secretária irá lá atendê-la.” Nããoo. Ela quis esperar lá na recepção mesmo, não se incomodava. E o forte aroma do recheio de morango subindo às minhas narinas, diretamente de dentro da gaveta.
Meia hora depois, a secretária surge, garbosa e elegante para me salvar da aluna e eu poder enfim me render aos encantos do bolinho. Mas para meu completo desespero, as duas começam a discutir sobre a documentação ali mesmo, no meu balcão, DE FRENTE PARA MIM.
Derrotada, desisto de fazer meu lanche e resolvo esperar pela hora de ir embora, pra devorar o cobiçado pedaço de massa com recheio de geléia assim que botasse a ponta dos pés pra fora da porta.
19h30, 19h45, dava sábado, mas não dava 20h. 19h55, 19h56, desliguei o computador, comecei a juntar as coisas, peguei bolsa, casaco, livro, abri a gaveta, peguei o bolinho, olho no relógio e finalmente, oito horas!
Despedi dos colegas falando o “boa” da minha cadeira e o “noite” da porta.
Guardei a blusa na bolsa, pendurei a bolsa no ombro, ajeitei o livro debaixo do braço, abri a embalagem do bolinho e…
Ele caiu pelo outro lado, que eu tinha já tinha aberto, no início da aventura.
Fiquei 40 segundos catatônica, olhei pra guloseima envolta na sujeira das calçadas paulistas, ergui os olhos e as mãos para o céu e perguntei:
_Por quê?
Embora totalmente obscuras para mim, o destino devia ter suas razões para me fazer passar por mais esta provação. Se bem que em determinados casos, desconfio que o universo não apenas conspire, mas tenha armado verdadeiro complô contra mim.

As imagens que ilustram esse post, são do Izak. Que tal conhecê-lo melhor?

4 comentários sobre “Das razões que desconhecemos

  1. A sua habilidade na escrita não sobrepôs a graça na história. Aliás, adoro tragicomédias =P

    Deu dó de vc, uma pessoa com fome merece uma guloseima, não há filosofia no mundo que mude esse meu pensamento.

    Dai ao estômago o que é de estômago

    Hehehehehe.

  2. Eu jurava que leria algo relacionado com a Teoria do Caos ou coisa parecida. Mas não. Espera aí!
    Essa garota vai colocar humor junto? E daquele jeito honesto e mastigado que dá pra ler com fome?
    Sim, parece que é isso.

    Uma das coisas que eu odeio são blogs sem personalidade. Mas esse aqui parece ter RG, CPF e residência fixa.
    Provavelmente foi a minha última leitura de 2010 e preciso dizer que valeu a pena. Posso usar os fogos de artifício do reveillon passado sem pestanejar.

    Vou seguir.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s