A caixa de óculos

_Você precisa trocar sua caixinha do óculos.
Sorri discretamente e alisei a embalagem de acrílico, já trincada e cheia de riscos. Na tampa, um adesivo do Bob Esponja meio gasto pelo atrito com os outros objetos que infestam a bolsa feminina.
_Troco os óculos, mas não troco a caixa.
A maioria não entende todo esse apego, mas a questão não é a caixa. É o adesivo. Há tanto tempo colado, que se despedaçaria à menor tentativa de descolá-lo.
Nele, o Bob Esponja saltita, com os braços carregados de corações e espalha-os pelo caminho em que passa.
No dia em que meu amigo me deu aquele adesivo, estávamos ambos sentados lado a lado na sala de aula, no primeiro semestre da faculdade e eu ria de seu caderno do Bob Esponja.
_E esse caderno de quinta série, heim?
_O Bob é o melhor, cara! Você também gosta dele?
Eu ria do rapaz moreno e tatuado. Seus braços e peito eram cobertos por desenhos coloridos, até o pescoço. Nos lóbulos ele trazia grandes alargadores.
_Gosto. Minha irmãzinha coleciona DVD’s com os episódios. Eu assisto junto com ela e me mijo de rir.
_É genial. Tó. Escolhe um adesivo.
_Qualquer um?
_Qualquer um. Não! Pega esse aqui, dos corações. É mais a sua cara. Todo fofinho.
Peguei o adesivo e colei na caixa de óculos.
Ele voltou ao assunto que tratávamos, antes de falar do Bob: o casamento que ele e a noiva estavam planejando. Os dois haviam combinado que completariam o apartamento com itens básicos antes de realizarem a cerimônia, sem pressa. Ele começou uma lista de coisas para serem compradas aos poucos. E me pedia pra conferir a tal lista, ver se não faltava alguma coisa, antes de mostrar para a noiva.
_Sabe como é: preciso do ponto de vista feminino.

(…)

A bomba veio depois das férias, no primeiro dia de aula do segundo semestre.
_Você ficou sabendo do Daniel?
A expressão tensa da amiga me avisou que não se tratava de uma fofoca. Era algo realmente sério.
_Como assim, o que houve? Por que ele faltou hoje?
A amiga sentou ao meu lado. Senti o vazio no estômago e a garganta formigando. Sensações que sempre precedem as péssimas notícias.
_Ele se suicidou durante as férias.
Ao longe, eu ouvia trechos do que a garota me dizia, segurando minha mão. “Ele entrou em depressão quando ficou sem emprego” Eu entendi todo aquele cuidado. Nós éramos muito próximos. Ela estava tentando ser o mais delicada possível ao me dar a notícia. “A mãe dele está presa, ele estava passando por dificuldades. Na verdade, passou até fome.” Ao longe a voz ressoava. Bem longe. Mas todo o cuidado, toda a explicação do mundo não justificaria o fim da vida dele. Não pra mim. “Quando perdeu a namorada, ele perdeu a última razão pra viver.”
Não me lembro se ela parou de falar nesse ponto, ou se somente deixei de ouvir.
Olhei para os meus cadernos que ainda levavam nas últimas páginas alguns rabiscos dele. Sobre o caderno, estava a caixa de óculos com o adesivo que ele me deu.
Eu não chorei. Nunca chorei a sua morte.
Foi estanho, mas parece que isso nunca aconteceu. Parece que qualquer dia desses vou encontrá-lo no meio da rua e vamos retomar nossa conversa do ponto em que paramos, falar das nossas vidas no tempo em que ficamos sem nos ver.
Eu iria tirar a caixa de óculos da bolsa, mostrar e dizer: “Olha, Daniel! Eu ainda tenho o adesivo que você me deu.”

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7 pensamentos sobre “A caixa de óculos

  1. Também conheci alguém muito legal, ela fazia trampo de motoboy, ou melhor, motogirl. Um dia simplesmente ela sumiu do bairro e tempos depois ouvi boatos de que ela sofreu um acidente de moto e faleceu, outros me disseram que ela apenas voltou pra sua cidade natal. Não sei, apenas sei que nunca mais a vi. A Sheila foi uma grande amiga. As vezes vejo sua prima por ae, mas não tenho amizade com ela e também não tenho coragem de perguntar sobre a Sheila. Já faz quase 3 anos…

  2. Esses sentimentos que se acumulam a um passo de distância tornam ainda mais tênue o limiar da realidade. A gente não quer deixar que eles invadam nossas bolhas mas, mesmo assim, quando a pressão aumenta, eles gotejam sobre nossas cabeças sem parar…

    Beijo!

  3. Isso realmente aconteceu? Nossa!
    Perdi amigos, e sei o como é ruim.

    (por mais que não se chora, sempre fica um vazio e essa sensação de esperança, de um dia andar na rua e de fato se deparar com a pessoa…)

    Talvez por essa lembrança que alguns objetos nos proporcionam também coleciono coisas.
    Não sei definir exatamente o que SÃO essas coisas, mas estão lá. Eu as guardo e, quando as pego nas mãos, lembro. Simples assim! Hehe

    Acho que todo mundo deveria guardar coisas boas e ruins do passado.
    E também acho que você escreve muito bem! Hehe

    Beeijo e bom resto de semana.

  4. 5a feira a mayara me ligou querendo meu discman emprestado pra viajar com a familia da amiga dela. mas eu tbm ia viajar.
    voltei 10 dias depois, num domingo. o pai da amiga dela bateu o carro. com todo mundo dentro, na terça feira. cheguei pra missa de 7o dia.
    me restou 2 fotos que ela tirou de mim, pq a gente nao tirou foto juntas.
    1 par de all star rosa que a mãe dela me deu. e os jornais do acidente. ela deitada na rua, e o all star preto.
    isso foi em janeiro de 2003. e ainda assim, qdo eu vejo alguem q lembra ela, eu quase vou cumprimentar.

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